Variância e desvio padrão: cálculo, unidade e divisores

Dois grupos podem ter a mesma média e apresentar resultados muito diferentes. A variância e o desvio padrão medem quanto os valores se espalham em torno da média. Vamos entender essa ideia antes de usar a fórmula.

1. Por que a média sozinha não é suficiente?

Considere os tempos de espera de três pessoas em cada um de dois grupos:

GrupoTempos de esperaMédia
A4, 5 e 6 minutos5 minutos
B1, 5 e 9 minutos5 minutos
Grupo A: tempos mais próximos012345678910456Média = 5 minGrupo B: tempos mais espalhados012345678910159Média = 5 minMesma escala nos dois grupos: tempo de espera (minutos)
No grupo A, os tempos estão próximos de 5. No grupo B, há tempos bem menores e bem maiores que 5.

As médias são iguais, mas a experiência das pessoas é menos uniforme no grupo B. Essa diferença é a dispersão. Quanto mais os valores se afastam da média, maior tende a ser o desvio padrão. Se todos os tempos fossem iguais a 5, a dispersão seria zero.

2. O primeiro passo é calcular os desvios

Um desvio em relação à média é a diferença entre um valor observado e a média:

Desvio=valor observado−média

Exemplo principal — cinco tempos de espera

Os tempos foram 1, 3, 5, 7 e 9 minutos. Vamos descrever a dispersão desses cinco valores, usando o divisor 5 na variância.

Primeiro calculamos a média:

Média=1+3+5+7+95=255=5 min
Quanto cada tempo se afasta da média 5?11 − 5 = −433 − 5 = −255 − 5 = 077 − 5 = 299 − 5 = 4TempoMédia = 5Desvio (min)
O sinal indica o lado da média: negativo para um tempo menor que 5 e positivo para um tempo maior que 5.

O tempo de 1 minuto tem desvio −4 minutos: está 4 minutos abaixo da média. O tempo de 9 minutos tem desvio +4 minutos: está 4 minutos acima dela. O tempo de 5 minutos tem desvio zero.

3. Por que elevar os desvios ao quadrado?

Se somarmos os desvios com seus sinais, os positivos e os negativos se cancelam:

(−4)+(−2)+0+2+4=0

Essa soma é zero, mas os tempos não são todos iguais. Portanto, a soma dos desvios não serve para medir o espalhamento. Na variância, elevamos cada desvio ao quadrado: os resultados ficam não negativos e deixam de se cancelar. Além disso, os desvios maiores recebem mais destaque.

Tempo (min)Desvio: tempo − 5 (min)Quadrado do desvio (min²)
11 − 5 = −4(−4)² = 16
33 − 5 = −2(−2)² = 4
55 − 5 = 00² = 0
77 − 5 = 22² = 4
99 − 5 = 44² = 16
Total040

Observe os parênteses: (−4)² = (−4) · (−4) = 16. Elevamos o desvio inteiro ao quadrado. Não estamos elevando apenas o valor observado ao quadrado.

4. Variância: a média dos quadrados dos desvios

Para descrever este conjunto, dividimos a soma dos quadrados pela quantidade de valores. Chamaremos essa variância de V:

V=soma dos quadrados dos desviosquantidade de valores
V=16+4+0+4+165=405=8 min2

A variância é 8 min². Ela fica em minutos quadrados porque elevamos diferenças medidas em minutos ao quadrado. Não devemos interpretar esse resultado como “8 minutos de afastamento”.

5. Desvio padrão: voltar à unidade original

O desvio padrão, que representaremos por DP, é a raiz quadrada da variância. Essa raiz desfaz o quadrado da unidade, permitindo expressar a dispersão novamente em minutos:

DP=V=8≈2,83 min

Portanto, os cinco tempos têm média de 5 minutos e desvio padrão de aproximadamente 2,83 minutos. O desvio padrão resume a escala dos afastamentos em relação à média: é uma medida de dispersão na mesma unidade dos tempos.

Isso não significa que cada pessoa ficou exatamente 2,83 minutos distante da média, nem que todos os tempos estão entre 5 − 2,83 e 5 + 2,83. No exemplo, 1 e 9 ficam fora desse intervalo. Também não é a média simples das distâncias: ele é calculado a partir dos quadrados dos desvios.

Não existe um número que seja sempre um desvio padrão “alto” ou “baixo”: a interpretação depende da unidade, da escala dos valores e do contexto. Para comparar diretamente o espalhamento de grupos, confira se a variável e as unidades são as mesmas.

Voltando aos dois grupos do início

GrupoDesvios em relação à média 5Variância com divisor 3Desvio padrão
A: 4, 5, 6−1, 0, 11+0+13 ≈ 0,67 min²≈ 0,82 min
B: 1, 5, 9−4, 0, 416+0+163 ≈ 10,67 min²≈ 3,27 min

O grupo B tem maior desvio padrão, confirmando o que o gráfico mostrava: seus tempos são mais espalhados em torno da mesma média. Os valores da tabela foram arredondados apenas para apresentação; o cálculo da raiz usa as frações exatas.

6. A fórmula com letras

Usamos n para a quantidade de observações e x₁, x₂, …, xₙ para os valores. O símbolo x¯ (leia “x barra”) representa a média. A fórmula repete exatamente as etapas do exemplo: subtrair a média, elevar ao quadrado, somar e dividir.

V=(x1−x¯)2+(x2−x¯)2+⋯+(xn−x¯)2n

Uma conferência útil: a variância e o desvio padrão nunca são negativos. Ambos são zero quando todos os valores são iguais. Some os quadrados antes de dividir e deixe o arredondamento para o final.

7. Por que às vezes o divisor é n − 1?

As duas fórmulas têm finalidades diferentes. Até aqui, descrevemos o conjunto apresentado e dividimos pela quantidade de valores, n. Se esses valores constituem toda a população estudada, essa é a variância populacional; ela também costuma ser representada por σ² (sigma ao quadrado).

Quando usamos uma amostra para estimar a variância de uma população maior, é comum calcular a variância amostral corrigida, representada por s², com divisor n − 1. Nessa fórmula, os desvios continuam sendo calculados em relação à média da própria amostra.

s2=soma dos quadrados dos desviosn−1

Qual é a ideia da correção? A média da população geralmente é desconhecida e foi estimada com os próprios dados da amostra. Os desvios em relação a essa média amostral ficam ligados entre si: sua soma é zero. Conhecendo n − 1 desvios, o último fica determinado. Sob as condições usuais de amostragem independente de uma mesma população, o divisor n − 1 corrige a tendência de subestimar a variância populacional.

Os mesmos cinco valores, outra finalidade

Se os tempos 1, 3, 5, 7 e 9 minutos forem uma amostra usada para estimar a dispersão de uma população maior, a soma dos quadrados continua sendo 40, mas agora usamos 5 − 1 = 4:

s2=405−1=10 min2
s=10≈3,16 min

Aqui, s é o desvio padrão amostral correspondente. Ele é a raiz de s², assim como DP era a raiz de V.

FinalidadeDivisorResultado para 1, 3, 5, 7, 9
Descrever os cinco valores fornecidosn = 5V = 8 min²; DP ≈ 2,83 min.
Estimar a variância populacional pela variância amostral corrigidan − 1 = 4s² = 10 min²; s ≈ 3,16 min.

Não escolha o divisor só porque há poucos ou muitos dados. Leia a finalidade e a convenção do exercício. Nesta trilha, “variância descritiva” usa n; “variância amostral corrigida” usa n − 1 e exige pelo menos duas observações.

Confira se entendeu

Três entregas levaram 2, 4 e 6 minutos. Calcule a variância descritiva e o desvio padrão desses três tempos, usando divisor n.

Ver resolução

A média é 4 minutos. Os desvios são −2, 0 e 2 minutos; seus quadrados são 4, 0 e 4 min². A soma dos quadrados é 8 min².

V=83≈2,67 min2
DP=83≈1,63 min

Usamos 3 no denominador porque a questão pede a variância descritiva dos três valores. A variância fica em min², e o desvio padrão em minutos.

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Como referenciar: "Estatística" em Só Matemática. Virtuous Tecnologia da Informação, 1998-2026. Consultado em 05/11/2026 às 09:01. Disponível na Internet em https://www.somatematica.com.br/estat/basica/variancia.php

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