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O jogo da qualidade de vida IV

Não é possível saber se minha inteligência produzirá mais QV. Entretanto, é a única opção que possuo, fornecida pela evolução do cérebro ao longo de milênios, para planejar minha ação no instante seguinte. Se eu verificar que uma perda de QV ocorreu, então recorro novamente à minha inteligência para reparar essa perda. Continuo acreditando que sou inteligente, embora tenha que, eventualmente, reparar certas perdas.

O jogo da qualidade de vida III

Com as regras gerais que já temos, é possível iniciarmos experiências de análise do JQVI estudando ganhos e perdas, suas possíveis causas e a probabilidade de aumentar ganhos e diminuir perdas.

Para facilitar o trabalho, recordemos as regras e estratégias assumidas até agora com as quais definimos esse JQVI.

S1: estratégia do modo de locomoção para o trabalho.

S2: estratégia do uso da inteligência do indivíduo.

S3: estratégia da tentativa e erro sempre supondo o uso da inteligência do indivíduo.

F1: as regras do JQVI são mutáveis, instáveis e imprevisíveis.

F2: as regras do JQVI não são respeitadas por todos e são assimétricas e se confundem com estratégias.

R1: a energia biológica é a fonte maior de QVI.

R2: o sistema social é a principal ameaça à QVI.

R3: a cadeia alimentar lembra a disputa feroz pelos recursos limitados da Biosfera.

R4: o indivíduo é um oponente importante de si próprio no JQVI.

R5: a Biosfera é o principal jogador do JQVI.

R6: o Estado é um oponente importante do indivíduo no JQVI.

R7: a sociedade é o maior oponente do indivíduo no JQVI.

R8: a disputa social por QV se arrasta por milênios.

Cada leitor pode fazer uma simulação de sua qualidade de vida por meio de um JQVI utilizando as regras acima. Deve-se recordar que nenhum jogo matemático dará conta da complexidade associada à sua vida, mas, paradoxalmente, não poderia perceber características importantes dela, de um modo objetivo, sem utilizar um modelo matemático.

Um possível exemplo de análise do JQVI é o seguinte.

Pergunto: como posso melhorar minha performance na disputa social por QVI sob o prisma da regra R8?

Em primeiro lugar, preciso entender por que existe a disputa social por QV. A resposta é simples: porque a QV depende dos recursos da Biosfera que são limitados e o Homo sapiens sapiens não controla sua população para manter-se adequadamente nesses limites.

Em segundo lugar, esses limites não são conhecidos e são difíceis de serem determinados.

O argumento de que os bens humanos existem em quantidade suficiente para todos é ineficaz porque despreza a ânsia humana em reter bens para tirar vantagens individuais de conforto e sociais dessa posse. Ou seja, o argumento desconhece as regras R2, R3, R5 e R7.

Logo, observo que estou imerso em um cenário “Malthusiano” de disputa feroz por espaço, tempo e bens materiais e imateriais. Malthus imaginou que o crescimento populacional tende a superar a capacidade de produção de alimentos e que a melhoria da humanidade é impossível sem que se imponham limites à sua reprodução. A segunda parte dessa imaginação nos parece uma observação genial em vista do que ocorre, por exemplo, nas grandes cidades. 

A crítica de que Malthus errou porque não previu a revolução na agricultura que causou um aumento exponencial da produção de alimentos trazendo prosperidade para um número maior de pessoas é evidentemente frágil. Simplesmente porque não calcula o “quão maior é esse número de pessoas” e insiste na ambigüidade afirmando que “o número de famintos diminuiu sendo agora causado por guerras ou políticas econômicas desastrosas de governos”. Se eu, indivíduo particular, quero melhorar minha QV, preciso me proteger dos perigos sociais de ser incluído dentre aqueles que ainda são famintos, não me importando se por culpa do governo ou de guerreiros. Malthus acertou brilhantemente, embora por meio de um discurso impreciso ou inexato, que a superpopulação é uma causa importante de baixa QV.  

Detemo-nos por um momento mais sobre o cenário Malthusiano. Em nosso modo de analisar esse JQVI, Thomas Malthus foi um dos mais importantes observadores das graves implicações que se seguiriam da atitude da população de se reproduzir mecanicamente e irracionalmente. A população não avaliou, e continua não avaliando, como ficaria o mundo com um número maior de indivíduos disputando os recursos da Biosfera e os bens humanos. A maneira como Malthus apresentou suas percepções pode ter pontos de questionamento, por exemplo, ele parece não ter mencionado a disputa óbvia por espaço físico e social, mas ele acertou em cheio na sinalização de que problemas sérios estão associados à superpopulação. Portanto, Malthus, de algum modo, percebeu algo análogo às regras R2, R3, R5, R6, R7 e R8.

O recurso mais evidente da Biosfera, que gera disputa, é o espaço físico. Quanto mais indivíduos na Biosfera, menos espaço para um indivíduo, eu em particular, locomover-se ou fixar-se. Muitos mudam-se para outras cidades, mudam-se os caminhos para o trabalho, mudam-se as épocas de viagens, mudam-se os horários

para se fazer coisas, etc., mudam-se ansiosamente hábitos em geral, mas as opções são limitadas e insuficientes para todos. A maioria não consegue dessa forma proteger eficazmente sua QV. Entre aqueles que possuem um poder social maior, a maioria só consegue amenizar o problema sem resolvê-lo.

Algumas cidades da Europa, região desenvolvida e rica do planeta, guardam, talvez para mais cem ou duzentos anos — ou para sempre — as características de suas ondas de superpovoamento do fim da Idade Média em diante: moradias amontoadas umas sobre as outras. É uma excelente ilustração para a Regra 8 no sentido de que problemas sociais não se resolvem, apenas se arrastam ou desaparecem devido a uma força maior que, por sua vez, introduz novos problemas socialmente insolúveis.

Esse fenômeno social se repete em países pobres e atrasados, socialmente e economicamente, na forma de favelas ou espigões de “caixa de fósforos”, que é o que parecem vistos de fora a uma certa distância, ou ainda diversos outros tipos de moradia. O significado da expressão arrasto dos problemas por milênios pode ser apreendido com facilidade por meio desse exemplo.

Desde as cavernas frias e escuras aterrorizadas por grandes felinos e lobos predadores do hominídeo, passando pelas cavernas iluminadas e aquecidas pelo fogo, o problema da moradia para todos os hominídeos não se resolveu. O fato de ter se resolvido para alguns não é suficiente nem convincente porque a probabilidade de que eu, indivíduo particular, esteja entre aqueles que se espremem não é pequena. Basta que eu nasça no meio deles. Aqui há uma questão psicológica interessante: e se eu, indivíduo particular, nascer de novo, ou já tiver nascido várias vezes? Bem, é uma sorte que a memória se apaga porque seria insuportável passar por esse problema milenar da falta de moradia ou do desconforto por milhares de vezes. 

Portanto, é difícil imaginar uma solução para todos os indivíduos no que se refere à moradia. Os indivíduos adaptam-se aos seus problemas, amenizando-os de alguma forma, ou cultivando ilusões de que isso ocorre, e alguns o resolvem completamente, mas o problema universal não se resolve e uma condição para melhorar a minha QV é ter consciência de que o problema é robusto, isto é, resistente a qualquer tentativa de solução, e exige dedicação rigorosa. Qualquer passo em falso e essa vida presente já não terá duração suficiente para resolver o problema. Assim, observo que a Regra 8 é uma regra robusta que verifico por meio do exemplo da moradia. Se eu quiser, portanto, melhorar minha QV sob o prisma da Regra 8, devo me preparar para o enfrentamento de uma situação que se arrasta por milênios e afeta milhões de indivíduos.

Para examinar a chance de ver um dos meus problemas específicos de QV resolvido, ou amenizado, eu posso fazer uma experiência matemática simples: calcular o número de familiares tais como avós, tios, primos e irmãos e, em seguida, calcular o número daqueles que encontraram uma solução de um problema específico de QV e, depois, fazer uma divisão e obter a porcentagem de familiares que tiveram uma melhoria naquele item específico de QV. Esse número dará uma idéia, embora não seja um número determinante de nada, da probabilidade de um membro da família resolver ou amenizar aquele item de QV nessa sociedade. 

As regras R6 e R7 nos alertam para o fato de que pode não ser uma boa idéia esperar que o Estado ou a sociedade resolvam para nós problemas como o da moradia por exemplo.

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