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Ver para crer ... . (II) 

Um argumento matemático desfaz a criação de uma coisa real. A natureza sequencial da autoconsciência imediatamente lhe dá os números naturais como óculos para ver a realidade do mundo. A autoconsciência não tem como ver a suposta realidade do mundo de outra forma a não ser sequencialmente. "Redes" não são visões da autoconsciência, são imaginações de visões, porque visões são unitárias, imaginações diretas uma de cada vez, e na sequência dos números naturais, embora a imaginação de que todos os nós da rede sejam reais, simultaneamente, não ofereça obstáculos para a autoconsciência.

Quem quer que seja a autoconsciência que proclame a realidade de uma coisa será duramente pressionada pelo argumento matemático da divisão. Essa foi a razão da criação  do átomo de Demócrito. Ele não poderia levar sua divisão ao infinito porque, evidentemente, a "coisa" não "se realizaria". Portanto, ele pára seu processo de criação em algum número natural, e afirma que encontrou o "átomo", aquilo que não é mais divisível.

Para o MJVI, a questão que se impõe é: não é mais divisível por que? Como resposta encontra a razão da criação das "coisas". Porque só assim pode realizar o desejo de que o mundo exista e, portanto, de que a própria autoconsciência exista, e o desejo de poder resultante na Interneuro conferido àquele que "sabe o que é ou como é o mundo". Esse padrão não é novidade para o matemático do JVI, uma vez que Euclides já o utilizara para estancar a cadeia infinita de razões em Geometria ao estabelecer os Axiomas e Postulados. Somente assim a Matemática poderia "existir" porque senão sempre um "por quê?" retiraria a credibilidade de qualquer argumento. Assim, a Matemática adquire o status de uma “coisa real” que possui a “realidade” de ser rigorosamente verdadeira.

A “realidade” da matéria é impelida para dimensões tão pequenas quanto o comprimento de Planck (10-35 metros) devido à avassaladora pressão do argumento da divisão por dois. Tem que ser suficientemente pequeno para que nenhuma autoconsciência possa dividí-la à la Zenão de Eléia. Portanto, não é surpresa para o matemático do JVI que a verificação da realidade última de uma coisa seja impossível. Se fosse possível, essa "coisa" seria dividida de alguma forma por alguma autoconsciência. Portanto, há uma terrível ironia do destino na questão de “verificação da realidade de uma coisa” uma vez que ela precisa ter dimensões inacessíveis para que qualquer autoconsciência fique impedida de questionar sua "existência real". Na Astrofísica ocorre o mesmo problema com dimensões muito grandes. O Universo precisa ter suas fronteiras inalcansáveis sob pena de deixar de ser "Universo", porque, caso contrário, alguma consciência anularia sua realidade simplesmente imaginando o que haveria além de suas fronteiras retirando-lhe a qualidade de ser "o todo que existe". Aqui o problema é análogo, mas há uma diferença fundamental. A autoconsciência imagina cada vez mais facetas da realidade do Universo, tornando-o cada vez mais inacessível por "excesso de visões" e aumento ilimitado de tamanho, enquanto que as "visões da realidade da matéria" são cada vez mais escassas com diminuição limitada de tamanho. A analogia não é simétrica.

Essa falta de simetria se deve ao fato de que o Universo não pode parar de crescer porque, caso contrário, seu tamanho sempre poderia ser dobrado por alguma autoconsciência e sua "existência" seria perdida do mesmo modo como a pedra e a folha de papel deixaram de existir ao serem divididas em duas. A Matemática já resolveu este problema com a formulação da hipótese de existência de infinitos universos com infinitas cópias de cada autoconsciência, e de existência de todas as possibilidades de variações do modo de ser de cada uma delas. Evidentemente, tais dimensões não poderão ser "vistas" porque, caso contrário, sempre alguma autoconsciência poderia perguntar por aquilo que "não é visto" abalando a condição de "existência dos Universos". 

Portanto, a verificação última da realidade de uma coisa tem que ser impossível por exigência da própria Matemática. Modelos matemáticos que superaram o impasse de Zenão de Eléia também se sofisticaram a ponto de tornar o seu objetivo inicial impossível de ser atingido. Em outras palavras, para se convencerem de que coisas são reais, as autoconsciências da Interneuro precisam contornar obstáculos óbvios, como a divisão e a multiplicação por dois, e acabam sendo obrigadas a se refugiar em dimensões de Planck da ordem de 10-35 ou em dimensões infinitas, paralelas e necessariamente também invisíveis.

“Todo sistema contém em si mesmo o germe da própria destruição”. “Tudo que é sólido desmancha no ar.” Essas imaginações são extrapolações de geniais observações de Karl Marx sobre o capitalismo e a possibilidade de sua própria destruição. Algum autocancelamento desse tipo deve valer para o Ser em geral, porque, do contrário, “coisas poderiam ser criadas”, saltando do Ser para o Existir, violando o paradoxo do criador - se uma coisa foi criada, seu criador teria que ter sido criado antes gerando uma cadeia infinita de criações sem início. Sistemas tendem a se desordenar, do contrário uma ordem eterna convergiria para uma “coisa existente”. Para o MJVI, o paradoxo do criador implica o Teorema da Convergência: processos que parecem convergir para a determinação de alguma “coisa” explodem, isto é, acabam se espalhando dissipando a possibilidade da existência dessa “coisa”. Qual seria o germe intrínseco da própria “destruição da Ciência”? Para o MJVI está claro quem é ele: trata-se da própria Matemática!

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