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O jogo da qualidade de vida II

Surge, então, naturalmente uma pergunta fundamental: de onde vêm esses custos inevitáveis? Quem, ou o que, nos impõem tais custos?   
O jogo da qualidade de vida I

É necessário esclarecer a questão de saber como o indivíduo elabora suas estratégias de sobrevivência. Recordemos que o jogo da qualidade de vida individual (JQVI) não é uma descrição da vida real de quem quer que seja, mas sim o cenário virtual teorizado que o cérebro do indivíduo poderia criar ao reconhecer-se a si próprio jogando seu JQVI. A lista de estratégias de um indivíduo será pequena para simplificarmos o jogo e não pretendemos que seja uma lista unânime. Ela servirá apenas para exemplificarmos o JQVI para um possível indivíduo.

Como os autores desse texto “captam” a elaboração do cérebro de um indivíduo qualquer? Somente pela hipótese de que existe a intersubjetividade entre todos nós. Isto é, aquilo que os cérebros dos autores elaboram deve ser análogo àquilo que os outros cérebros individuais elaboram. Evidentemente, quem não puder aceitar essa hipótese não poderá continuar a ler essas linhas.

É extremamente importante essa observação para, entre outras aplicações, evitar mal entendidos.

Abordaremos algumas vezes uma característica fundamental do JQVI e que pode estar presente em outros tipos de jogos. São duas as principais regras fundamentais.

(1) Regra F1. Nunca são conhecidas todas as regras do jogo; algumas desaparecem e outras aparecem sem controle de quem quer que seja e sem previsibilidade; esse processo é incessante.

(2) Regra F2. Regras não são leis que todos os indivíduos exerçam ou respeitem rigorosamente. São condições distribuídas assimetricamente e determinadas pelo poder social de cada um. Às vezes as regras se confundem com as estratégias individuais e essa é uma das características que definem a complexidade do JQVI.

Faz parte de nossa pesquisa aperfeiçoar continuamente a estrutura do JQVI. Como se trata de um fenômeno complexo, sua compreensão está sempre incompleta porque o próprio cérebro tem limitações e porque a vida real do indivíduo, algo absolutamente impossível de ser capturado por qualquer teoria, está sempre servindo de motivação para o JQVI.

Retomemos nossa tarefa de analisar o JQVI. Inesperadamente nossa imaginação captura intuitivamente uma visão de importância fundamental. Uns mais, outros menos, não importa, na prática todos os indivíduos parecem ter seus momentos de perda, todos parecem ser vítimas de custos inevitáveis, além, é claro, daquilo que parece ser ganhos, e esse processo é incessante. Por quê?

Descobrimos, então, a primeira regra do JQVI.

Regra 1. A partir do momento em que o coração do indivíduo começou a bater, não há  mais como interromper o processo de consumo de energia biológica. Os milhares de batidas do coração, da ordem de 70 ´ 60 ´ 24 = 4.200 ´ 24 @ 100.000 por dia, constituem um custo enorme de manutenção. Os outros órgãos são igualmente onerosos em termos de custo biológico. O funcionamento “normal” do sistema biológico do indivíduo é fundamentalmente frágil. Essa condição é a fonte primária da qualidade de vida do indivíduo.

Se o funcionamento do corpo parece “normal”, então o indivíduo coloca-o em segundo plano e dedica-se à segunda instância do JQVI.

Regra 2. Colocado em segundo plano o funcionamento do sistema biológico, passa a ocupar a cena principal do JQVI a posição ocupada pelo indivíduo no sistema social.

É importante observar que o funcionamento “normal” do sistema biológico não deixa de afetar a qualidade de vida do indivíduo, e nem deixa de preocupá-lo, por estar em segundo plano, e exige estratégias de sobrevivência continuamente. Não podemos analisar aqui os casos em que o sistema biológico não pode deixar de ocupar o primeiro plano. Concentraremos nossa atenção na dimensão social do JQVI, mas a dimensão biológica estará sempre envolvida como na estratégia S1 e, muitas vezes, ocupará a cena principal.  

É importante enfatizarmos o uso de conceitos matemáticos que naturalmente fizemos até aqui.

Por exemplo, quantificadores matemáticos como os termos “todos”, “algum”, “existe”, etc.. Os nossos leitores poderão perceber também outras categorias de conceitos matemáticos como “mais”, “menos”, “continuidade”, “sistema”, “quantidade”, “simetria”, “assimetria”, “estrutura”, etc., e, portanto, considerar que não é porque símbolos ou fórmulas explícitas não estejam no texto que ele não se trata de uma análise de um jogo matemático. Relembramos, mais uma vez, que nenhum jogo matemático corresponde fielmente a algum fenômeno real, e esse fato não nos desestimula a pesquisar a lógica de jogos matemáticos como a do cenário virtual que o cérebro do indivíduo cria a respeito de si próprio no mundo.

Para jogar o JQVI, isto é, a idealização matemática da vida individual, os indivíduos desenvolvem as mais diversas estratégias. Podem ser estratégias individuais, de grupo, militares, políticas, religiosas, etc.. Contudo, por que, mesmo assim, todos parecem ter, de maneira ininterrupta, durante toda a vida, perdas indesejáveis?

Procurando trilhar um caminho o mais intersubjetivo possível, diríamos que a causa de tudo está na condição animal. Animais são feitos de células que, por sua vez, já se disse, são simbioses de vírus e bactérias. Essas simbioses, por sua vez, dão origem a simbioses entre órgãos que acabam sendo comandadas, ou administradas, ou seja lá qual for o verbo que se queira empregar, por um computador quântico-biológico chamado cérebro. Bilhões de anos não apagam, entretanto, a condição fundamental de que tudo isso é conseqüência e só tenha sido possível devido à primeira célula que, um dia, acidentalmente engoliu outra “descobrindo” que sua energia interna aumentava vinte por cento graças ao oxigênio presente na engolida.

De passagem indicamos nesse ponto que não estamos nos preparando para uma procura de uma evolução linear onde acontecimentos se enfileiram uns após os outros como se fossem pontos de uma reta numérica. Voltaremos mais tarde a essa questão quando recorrermos às idéias de Stephen Jay Gould de que a história dos seres vivos não é necessariamente progressiva e, certamente, não é previsível.

Imaginaremos a vida social como uma configuração de redes com nós influenciando-se uns aos outros e todas elas complexas e interligadas de modo complexo. Entretanto, isso não nos impede de imaginar uma evolução dessa configuração captada em momentos sucessivos sem que a imagem se reduza a uma linha com pontos rigidamente ordenados.

Nunca mais se deteve esse processo de um engolir o outro na biosfera. Muito menos se vislumbra a menor chance de que esse padrão seja neutralizado nem mesmo em um futuro remoto, ou pelo menos esses autores não têm conhecimento de alguém que possa ter tal vislumbre.

Continuemos, então, a colecionar, para fins práticos de tomada de decisões cotidianas, regras que são padrões inevitáveis para os vivos que querem sobreviver na biosfera terrestre.

Regra 3. Não é possível interromper o processo desencadeado com a absorção de uma célula por outra e, principalmente, as configurações de redes que ficaram marcadas por ele. A cadeia alimentar tem sido inevitável. Sobre o futuro, não sabemos o que dizer.

Em todo jogo, os jogadores precisam conhecer seus oponentes e as estratégias, ameaçadoras ou não, deles. Uma mesma ameaça pode pertencer às estratégias de vários jogadores. Quem ou quais são os oponentes de um indivíduo no JQVI? Por que alguns indivíduos parecem ter menos qualidade de vida do que outros? Por que alguns indivíduos parecem estar sempre envolvidos em mais custos e perdas indesejáveis do que outros?

Não é preciso ter muita experiência de vida e nem muita reflexão para imaginar, num relance, sem conseguir evitar um calafrio, que, provavelmente, o próprio indivíduo é um importante oponente a si próprio no jogo da vida. Isto é, o próprio indivíduo parece ser causador de custos e da má qualidade de vida para si próprio. Descobrimos, assim, uma importante e natural linha de raciocínio para investigar a qualidade de vida individual de um ponto de vista da Teoria dos Jogos. Imediatamente, nos damos conta de que um oponente do individuo é ele mesmo. O indivíduo é mais perigoso para si próprio, por exemplo, do que o Estado.

Regra 4. O próprio indivíduo detém um grande poder de prejudicar sua própria qualidade de vida.

Isso se deve a várias razões. Uma delas é que o indivíduo pilota seu próprio corpo e, portanto, pode facilmente dirigi-lo contra obstáculos de natureza física ou social e, conseqüentemente, colher o custo da colisão. Outra razão é que ele pode não perceber “bólidos” físicos ou sociais que vêm em sua direção e não

conseguir desviar-se a tempo.

Observemos a natureza matemática dessa afirmação. É uma afirmação quantitativa, clara e que pode ser

interpretada estatisticamente por meio de amostras e de construção de intervalos de confiança. Antes, porém, é necessário definir o que se entende por “perigoso ao indivíduo”. Não vamos entrar nesse detalhe aqui, mas observamos que a aceitação dessa noção é intuitiva e qualquer que seja a definição desse conceito, a afirmação acima é plausível estatisticamente, portanto, matematicamente.

Haveria outros oponentes notáveis do indivíduo? A reposta é sim: o maior oponente do indivíduo é a Natureza! É com ela que, queiramos ou não, somos obrigados a jogar o jogo da qualidade de vida.

Regra 5. Um indivíduo habitante da Terra joga compulsoriamente o jogo da qualidade de vida com o jogador mais importante da biosfera, ou seja, o conjunto das condições de vida do planeta. Denominaremos esse jogador de Natureza ou Biosfera.

Formalizamos, então, os primeiros oponentes importantes do indivíduo no JQVI:

Regra 6. O Estado é outro importante oponente à qualidade de vida cotidiana do indivíduo.

Entretanto, a maior fonte de custos e perdas indesejáveis para o indivíduo é a sua inserção na sociedade humana. Por exemplo, a sua renda é função direta de seu relacionamento social com outros indivíduos e com as instituições sociais.

Podemos, então, apresentar o oponente causador dos maiores custos para o indivíduo no JQVI.

Regra 7 (Oponente mais oneroso do indivíduo). A maior fonte de custos e perdas indesejáveis, materiais e psicológicas, para o indivíduo é a sua inserção na sociedade humana. Por exemplo, a sua renda é função direta de seu relacionamento social com outros indivíduos e com as instituições sociais. Se tiver um relacionamento social insignificante com outros indivíduos ou instituições sociais, então sua renda será insignificante e o custo de suportar sua vida poderá ser um enorme sofrimento, a não ser que obtenha prazer com o sofrimento. Portanto, o maior oponente da qualidade de vida do indivíduo é a rede dos outros indivíduos.

Jean Paul Sartre dizia algo como “o inferno são os outros...”. Paradoxalmente, o indivíduo isolado estaria extinto e é por isso que não existe isoladamente. Contudo, o fato de que não é possível o hominídeo existir isoladamente na biosfera, não quer dizer que sua qualidade de vida seja uma conseqüência natural da vida em sociedade.

O indivíduo só não é mais perigoso para si próprio do que o são os outros indivíduos.

Uma pergunta natural surge nesse momento: quem ou o que constitui-se na fonte maior de perigos para o indivíduo?

Além dessa, uma das próximas questões importantes a ser considerada naturalmente nessa linha de raciocínio é sobre a capacidade do indivíduo de jogar estrategicamente. Do que eu preciso para ser um bom jogador, isto é, um jogador que minimize os desconfortos e a dor, e maximize o prazer de viver e a qualidade de minha vida?

A resposta, sem dúvida, é que eu preciso de inteligência. Contudo, essa resposta implica, imediatamente, em uma inevitável e intrigante pergunta: é possível que eu nem sempre esteja apto a utilizar a inteligência?

Examinaremos, em seguida, na próxima coluna essa crucial questão da inteligência que parece estar na base da performance do bom jogador.  

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