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O jogo da qualidade de vida I

................ por meio de uma combinação da Teoria dos Jogos, uma teoria genuinamente matemática, da Teoria da Computação e da atual Teoria da Evolução na Biologia, vem-se desenvolvendo uma visão de que a Economia possui processos de inovação análogos aos processos que geram diversidade na biosfera e sua dinâmica evolui segundo as leis do Darwinismo. Nessa perspectiva, a maneira como a Economia cria riqueza seria um processo adaptativo evolucionário. Aqui parece haver um paradoxo no sentido de que a Matemática, no campo de equações, torna-se inútil uma vez que processos evolucionários não são equacionáveis. Esse é o tema que vamos, nas próximas colunas, estudar e compartilhar com nossos leitores.

Duas notícias de importância inestimável 

Se o intrincado sistema de incentivos à criação de novas idéias é subdesenvolvido, então a sociedade sofre pela falta generalizada de progresso, tanto quanto quando esses incentivos são muito abundantes ou muito restritos.

  David Warsh

O jornalista David Warsh narra de um modo agradável a história da explicação da criação de riquezas  pelo Homo sapiens sapiens. É uma estória jornalística prazerosa das teorias econômicas. Simplificando extremamente o conteúdo de seu livro Knowledge and the wealth of nations: a story of economic discovery, poderíamos dizer que o economista Paul Romer foi bem sucedido em descrever matematicamente o poder econômico das idéias.

Para imaginarmos de um só golpe intuitivo do que se trata no livro de Warsh, mencionemos apenas os dois exemplos impressionantes da Microsoft e do Google. Ora, imediatamente, portanto, somos tomados por um pressentimento que nos faz suspender a respiração: nossa vida individual não seria um tipo de agente econômico que precisa sobreviver e competir na economia da vida social? Se brilhantes economistas entenderam com rigor matemático o papel das idéias na criação de riquezas, principalmente após a Revolução Industrial, qual a chance de que venhamos a entender, por analogia, a criação individual de qualidade de vida para si próprio?

Em outras palavras, países melhoram sua qualidade de vida criando riquezas por meio da economia e as idéias dos inventores são o elemento crucial, embora não o único, do processo de criação. Por que não seria análogo o papel das idéias do indivíduo na criação de sua própria qualidade de vida?

Não é novidade o desejo de estudar os meios de se viver com qualidade e é impossível competir com os sistemas filosóficos e religiosos. Entretanto, pode não ser tradicional o desejo de entender com o rigor matemático os meios de sobrevivência individual com qualidade na sociedade.

Como isso seria possível? Se a analogia sugerida fizer sentido, então saberemos por onde começar. Devemos considerar as idéias individuais. São elas a chave para a qualidade de vida. É claro que essa afirmação é trivial e não precisa de nenhuma história econômica como referência para ser sustentada. Porém, o que não parece fácil é entender matematicamente a razão pela qual as idéias são o principal recurso para uma vida com qualidade.

Cabe lembrar que, assim como não existe na Natureza ponto, reta e plano, muito menos fractal algum, também não existe em lugar nenhum do Universo nada que seja nem de longe exatamente igual a qualquer jogo matemático que alguém possa conceber. Por quê? Porque na Natureza ou no Universo as condições são complexas e impossíveis de serem capturadas perfeitamente por qualquer que seja a teoria concebida por espécimes de Homo sapiens sapiens.

Por que, então, gastarmos tempo com Teoria dos Jogos? Porque o seu exercício nos inspira, excita nossa imaginação e alimenta nossa intuição sobre como poderia ser a verdadeira realidade. Povos que investiram pesadamente nas teorias da Matemática, da Física, da Química e da Economia, por exemplo, vêm colhendo riquezas abundantes, melhorando significativamente sua qualidade de vida, mesmo sabendo que qualquer teoria é pura imaginação humana. Finalmente, porque achamos que é um modo divertido de passar o tempo e poderá nos ajudar a melhorar nossa qualidade de vida.

Como então começar? Novamente, por que não emprestarmos dos economistas alguns de seus métodos?

A história das teorias econômicas revela um amadurecimento matemático em direção à Teoria dos Jogos. Essa parte da Matemática aparenta ser o método mais geral para se inspirar e analisar um sistema econômico.

Por que não seria também útil para experimentarmos uma análise de nosso problema?

Não há como saber de antemão se esse é um bom projeto ou não. Todavia, podemos tentar justificá-lo antecipando a validade de nossa tese. Isto é, assumindo que a análise das idéias seja uma fonte imensa de prazer, estaremos melhorando a qualidade de vida de modo importante ao examinar se são boas ou se devem ser descartadas. De qualquer maneira, o exercício de análise será, provavelmente, útil em quaisquer outras situações em que o cérebro for exigido.

Sendo assim, imitando alguns economistas, tentaremos utilizar a Teoria dos Jogos para compreender por que as idéias do indivíduo são a chave da sua qualidade de vida.

Ao mesmo tempo em que exploraremos essa teoria matemática para melhorar nossa capacidade de análise, enfrentaremos diretamente nosso problema sem subterfúgios e sem demora.

Quando pensamos em qualidade de vida, imaginamos a qualidade de vida individual. A vida do indivíduo é boa ou não. Porém, o que é “a vida do indivíduo”? Esse, talvez, seja o problema mais difícil de todos os tempos humanos e cuja solução, em termos racionais, parece impossível. Isso, todavia, não nos impede de investigar o que é que melhora e o que é que piora a “minha vida individual”.

Intuitivamente, sei que estou vivo e continuo vivendo, mas não sei o que é “minha vida”. Também suponho que sou capaz de distinguir aquilo que melhora a minha vida daquilo que a piora.

Estou pronto, portanto, intuitivamente, para iniciar uma tentativa matemática de entender por que minhas idéias são a chave principal da qualidade da minha vida individual.

São inúmeras as perguntas iniciais possíveis. Temos que escolher uma, é inevitável, para começar. Quais são as coisas que poderiam melhorar minha vida? Percebemos, imediatamente, que essa pergunta é bem mais difícil do que: quais são as coisas que ameaçam piorar minha vida, ou quais são aquelas que já estão me afetando negativamente?

Imediatamente, percebemos um progresso em nossa análise: a segunda pergunta parece bem mais fácil do que a primeira e, por sinal, bem mais urgente. Além do mais, a segunda pergunta é extremamente útil porque, se conseguirmos saber que X é ruim e que X está ali à espreita para me atrapalhar, então evitar X é impedir que minha vida piore.

Tomemos um exemplo para a primeira pergunta. Uma coisa boa seria eu poder comprar um carro e ir ao trabalho ouvindo músicas do meu gosto, sempre preservando o frescor do banho matinal e chegando ao local de trabalho ainda sentindo o cheiro do sabonete. A dificuldade é que ainda preciso trabalhar muito para juntar o dinheiro necessário para isso. Porém, há uma dificuldade ainda maior: hoje em dia não há quase mais espaço para eu colocar meu carro nas ruas da cidade. Um exemplo para a segunda pergunta seria quais são as dificuldades que posso evitar para me dirigir ao trabalho?

Estratégia S1. O trânsito lento, o ônibus, ou o trem, superlotados e a poluição automotora pairando na avenida poderiam ser evitadas se eu fosse ao trabalho bem mais cedo do que o necessário. Da mesma forma, se eu saísse bem mais tarde do que o permitido, eu poderia evitar esses problemas. A volta para casa em horário tardio pode ser inviável porque no dia seguinte tenho que sair muito cedo e meu tempo vital comigo mesmo em casa ficaria comprimido de modo indesejável.

Esse primeiro passo, que surgiu quase naturalmente, nos remete à famosa estratégia MINIMAX do matemático John von Neumann. É um passo enorme do raciocínio estratégico. Não sabendo como melhorar, pelo menos devemos minimizar o máximo de prejuízo. Daí o nome minimax. Com essa estratégia de negação podemos progredir muito na pesquisa sobre nosso problema. Não sabemos quais Y são bons, mas alguns X são claramente ameaçadores e estão à espreita; logo, devo me esforçar para evitar X. Se conseguir, então melhoro minha qualidade de vida, porque impedi que ela piorasse, afastando a ameaça X, ou seja, diminuí meus prejuízos e, portanto, diminuí o máximo de possíveis perdas.

Observamos que a estratégia de voltar mais tarde para casa é, em geral, inviável. Portanto, para minimizar o prejuízo de eu ter que ficar fora de casa, impossibilitado de cultivar meu eu interior e me apropriar de meu tempo vital, eu tomo a decisão de suportar o desconforto e o desprazer, senão a dor, da volta para casa no horário em que todos tomam a mesma decisão. Temos aqui uma situação importante para a análise matemática da vida individual. Sempre há custos, maiores ou menores, que podem ser mais ou menos dolorosos, a serem suportados para tudo que decidimos fazer.

Surge, então, naturalmente uma pergunta fundamental: de onde vêm esses custos inevitáveis?

Quem, ou o que, nos impõem tais custos?

 

  

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