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Sobre o atual
ensino de Matemática no curso médio
Uma
caracterização
Será
possível descrever o tipo de ensino atualmente praticado no curso médio? O
país é vasto, com múltiplas diferenças regionais; as escolas são
numerosas com perfis muito variados em termos de instalações, de propostas
pedagógicas, etc. Há escolas noturnas, para alunos que trabalham durante o
dia, oferecendo três aulas semanais de Matemática; por outro lado em
certas escolas, cujos os alunos vêm de famílias de alto poder aquisitivo,
ministram-se sete aulas semanais da disciplina no período matutino.
No entanto, acreditamos que existe um tratamento comum à maioria das
escolas, em relação a nossa disciplina. Trata-se de enforcar a Matemática
como um conjunto de técnicas (ou algoritmos ou procedimentos) com o qual se
obtêm certos resultados. Isso se reflete na grande quantidade de exercícios
que se resumem a "calcular" , "obter" , "
efetuar". Quase tudo consiste em aplicar as fórmulas adequadas em
contextos exclusivamente matemáticos. Demonstrações quase nunca surgem,
mesmo quando se trata de uma simples dedução de fórmula. O que importa é
o "como fazer", sem preocupação com o "por que fazer
assim" e menos ainda com o "para quê fazer".
Esse tipo de ensino afasta-se daquele que o PCNEM defendem. Situações com
contexto e tratamento interdisciplinar são raras. Dificilmente ocorrem
momentos que possam favorecer o desenvolvimento de habilidades de representação,
comunicação e expressão de idéias matemáticas. Além disso, há poucas
oportunidades para explorar os raciocínios na resolução de problemas
verdadeiros e sim exercícios padronizados.
Por tudo isso a Matemática perde seu potencial formativo, não exibe suas
aplicações nos vários campos do conhecimento, nem permite que o educando
a veja como uma ciência organizada. Esse estado de coisas tem pouco a ver
com "a estética da sensibilidade, a política da igualdade e a ética
da identidade".
Esclarecemos que a nossa visão sobre o atual ensino de Matemática não
pretende desmerecer os muitos colegas que dedicadamente ensinam no curso médio.
As críticas aqui contidas dirigem-se às concepções e não às pessoas.
Além disso, é claro que há escolas que, felizmente, escapam ao quadro
apresentado.
É preciso assinalar também que muitos dos males apontados surgem em todas
as disciplinas. Recentemente, o educador e psicanalista Rubem Alves contou
que, sobrevoando o estado do Paraná, perguntou à comissária de bordo qual
o nome do grande rio que se avistava da janelinha do avião. A moça lhe
disse que se tratava do São Francisco. Assombro! Comissárias de bordo
certamente completaram o curso de 2 grau. Esta pode mesmo ter sido a boa
aluna, nomeando corretamente os rios que apareciam nos mapas em suas provas
de Geografia. Mesmo assim, ela viu o São Francisco no estado do Paraná (na
verdade, o rio era o Paranapanema) porque "não foi ensinado a ela que
o mapa, coisa que se faz com símbolos para representar o espaço, só tem
sentido se ligado a um espaço que não é símbolo, feito de montanhas,
rios de verdade, planícies e mares".
Esta história verídica ilustra, para a Geografia, o ensino sem contexto, não
significativo, que, porém, foi ou ainda é habitual. O mesmo ocorre em
outras disciplinas porque todas refletem o antigo paradigma de ensino
informativo que bania a reflexão e ignorava o sentido e o contexto, já
referido no início deste artigo.
Para alguns, até parece natural que o ensino de Matemática seja
descontextualizado, pois, conforme alegam, todos os objetos matemáticos são
abstrações. A essa concepção contrapõe-se a seguinte crítica: sem dúvida,
é possível olhar a Matemática sobre diversos ângulos; só que algumas são
bastante inadequados quando está em jogo a aprendizagem da Matemática.
A
"culpa" do vestibular
Até certo ponto, o quadro que caracterizamos pode ter se estabelecido como
um tentativa de adaptar o ensino às necessidades dos exames vestibulares.
Muitos professores afirmam que essa é a única maneira razoável de atender
tais exigências. Afinal, se um outro exame se limita a aplicação de
algoritmos e fórmulas, parece obrigatório treinar os alunos, mesmo que em
tarefas de pouco sentido.
Abrindo parênteses, é interessante lembrar um episódio narrado pelo
conhecido cronista Mário Prata. Um de seus textos fazia parte de um exame
de vestibular de Língua Portuguesa e ele, o próprio autor, se sentiu
incapaz de responder às questões de interpretação lá propostas.
Aparentemente, os examinadores supunham que, para ingressar numa faculdade
de medicina, os alunos devessem dominar os meandros da moderna crítica
literária.
Apesar disso, culpar o vestibular por males do ensino não convence.
Primeiro, porque os vestibulares não se enquadram todos num mesmo padrão e
não são imutáveis. O sistema de ingresso adotado pela Universidade de
Brasília, os exames da Unicamp, da PUC Campinas, da PUC São Paulo e os de
algumas universidades federais são exemplos do gradual desuso do vestibular
"conteudístico" e excessivamente técnico. Provas fora da
realidade, como a descrita por Mário Prata, substituem em muitos locais,
mas não podem perdurar porque sua inadequação torna-se visível.
Em segundo lugar, não se compreende por que um ensino de pouca qualidade
formativa conduziria ao sucesso no vestibular. Ao contrário, saber pensar
matematicamente e saber usar conhecimento em diferentes contextos dariam
maior garantia de sucesso, mesmo em um exame equivocado.
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