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Antonio Geloneze


Eno Cardoso

 

Coluna publicada em 16/05/2008

 

O jogo da qualidade de vida VI

 

Razão ou matemática é um estágio de evolução da consciência que, por sua vez, é um estágio na evolução da psique que, por sua vez, é um estágio na evolução de um tipo de matéria que, por sua vez é um estado possível do Universo, portanto, um dos estágios de sua evolução. Razão ou matemática é a capacidade da consciência de estruturar as representações de primeiro nível da psique.

O jogo da qualidade de vida V

Recordemos que toda representação de segundo nível que representa, portanto, outras representações, é necessariamente estruturante. O exemplo que demos de Teoria dos Conjuntos foi o de que não é possível formar um conjunto C de conjuntos C1, C2, ... , Cn sem que se domine a totalidade. O número n é uma propriedade imediata da totalidade C = {C1, C2, ... , Cn}. Essa notável propriedade imediata demonstra que a totalidade é uma representação estruturante.

           Estudávamos, como parte do jogo maior JQVI, o subjogo do indivíduo que denominamos Jogo Interior ou JI. As estratégias básicas possíveis nesse subjogo eram:

JI1: O indivíduo se vê como uma capacidade de representação das representações de suas potencialidades ou instintos, ou ainda, como psique capaz de representar suas representações de primeiro nível. Sua vida é sua psique e, reciprocamente, sua psique é a sua vida.     

JI2: Há duas possibilidades de disposição do indivíduo frente ao objeto. Introversão ou extroversão. Isto é, o indivíduo sempre tende a se afastar do objeto, abstraindo-o, como quem já sabe que ele não tem muito valor, ou sempre tende a se aproximar do objeto como se tivesse dúvida sobre o seu valor e necessitasse afirmá-lo para  compensar a dúvida.       

JI3: O indivíduo tem dificuldade em lidar com seu inconsciente, mas não pode eliminá-lo. A estratégia é procurar descobrir um modo de convivência pacífica. O custo da não descoberta é a neurose. 

JI4: O indivíduo tem dificuldade em lidar com sua consciência, mas esta é diferente do inconsciente. Entretanto, a consciência se relaciona com o inconsciente, quer o indivíduo queira ou não. Ele pode assumir a estratégia de aprimorar sempre a consciência na direção do autoconhecimento e pressupor que essa estratégia minimize os prejuízos de um viver inadequado. Os prejuízos podem ser o sofrimento psíquico mais geral ou qualidade de vida menor.     

JI5: O indivíduo pode assumir a estratégia da curiosidade sobre si mesmo e, explorando sua capacidade natural de produzir informação, ser crescentemente criativo tendendo a compensar os maiores prejuízos possíveis da existência que são os medos do abandono e do sofrimento psíquico.   

    

            Colocamos no JI a hipótese de que a psique é matéria no estado de informação. Fizemos a analogia que, assim como a matéria m pode se expressar como energia E (E = m c2), ela também pode se expressar no estado de informação. Nesse ponto surge uma pergunta interessante: qual seria a fórmula análoga

H = H(E) = H(m c2)

 para a transformação da energia E em informação H?

              Fizemos, também, a observação que a expressão psíquica parece ser uma compensação da entropia ou, reciprocamente, a entropia se parece com uma compensação da expressão psíquica. A idéia de compensação, ou equilíbrio, é um dos pilares da Matemática e da Ciência em geral. Ela foi aproveitada por Carl Gustav Jung para entender o funcionamento da psique. Observamos que o princípio da compensação entre conteúdos conscientes e inconscientes de Jung pode ser a idéia chave para se aplicar com eficácia a estratégia JI5.

               Assim sendo, estamos então prontos para analisar o JI. O grande motor de nossas ações será sempre o princípio de compensação. Sempre perguntaremos se a situação está equilibrada ou não, e quais são os elementos que compõem o equilíbrio ou quais são os elementos que deveriam estar presentes para que o equilíbrio ocorresse.

                O nosso interesse é a análise de um indivíduo particular jogando o JI, além da análise do cenário maior das condições que podem envolver todos os jogos interiores possíveis. Outros já se dedicaram a essa tarefa. O pioneiro foi Sigmund Freud com sua brilhante hipótese do aparelho psíquico e suas pulsões. Introduziremos algumas idéias em nossa análise do JI inspiradas nos conceitos de Freud, ou de Jung, mas que não terão o compromisso de coincidir com elas e poderão até mesmo deformá-las irremediavelmente. O percurso de nossa intuição e de nosso raciocínio será totalmente livre.

                O primeiro problema que imaginamos é o do aparecimento da consciência conectada à inconsciência por meio de uma zona de pré-consciência. Interpretaremos idéias de Freud e Jung ao nosso modo imaginando que o indivíduo que joga o JI se defronta com uma geometria. Isto é, sua natureza é a de um círculo escuro, composto de conteúdos psíquicos desconhecidos e inacessíveis, envolto por uma coroa menos escura composta de conteúdos parcialmente conhecidos e acessíveis que, por sua vez, encontra-se envolta por uma segunda coroa, esta bem mais clara e formada por conteúdos psíquicos aparentemente conhecidos e acessíveis.

                Supomos que os sonhos do indivíduo sejam pistas sobre os conteúdos inconscientes, mas não nos restringimos a essa como sendo a única possibilidade. Introduzimos a noção de “intuição” como sendo uma outra via de acesso aos conteúdos inconscientes. A idéia é a seguinte: como sugerem os sonhos, não existe um bloqueio intransponível entre os conteúdos inconscientes e conscientes; apenas supomos que são difíceis o relacionamento e a conexão entre eles. Canais de conexão devem existir, embora sejam ainda inacessíveis por meio de atitudes metódicas da consciência. A intuição é outro indício de que tais canais estão abertos e ela traz ao consciente imaginações que se formam no inconsciente.

                As imaginações são produto da psique que supomos ser matéria em estado de informação. Portanto, só podem originar-se da atividade da matéria viva capaz de produzir e reter informação. Observemos que uma informação produzida e retida pela matéria viva não é a mesma que um computador armazena em bits em sua memória. Acrescentamos a hipótese de que uma informação produzida e retida pela psique é sempre dupla, isto é, ela é necessariamente acompanhada pela interpretação, ou aquilo que a informação vislumbra, ou aquilo que “vê” ou aquilo que “significa”. Portanto, é necessário supor que o estado de informação que a matéria adquire na psique contém informações informadas sobre si próprias. Do contrário, não seria psique.

                Esse ponto merece uma atenção redobrada. Já dissemos que o segundo nível de representação é o da representação das representações de primeiro nível. É necessário enfatizar que, na psique humana, a representação de segundo nível é automática. As representações de primeiro nível, os instintos, por exemplo, são automaticamente representadas em um segundo nível.    

                Como a origem e formação das imaginações (informações produzidas pela matéria viva) não são visíveis dizemos que surgem no inconsciente. A intuição é como a radiação de fundo do Universo, um rastro de que algo ocorreu de um certo modo. Ela é uma pista de que a matéria viva atuou, produziu uma informação segundo sua capacidade, e deixou um rastro do que a informação significa.

                A intuição é a principal fonte de inspiração da psique humana, em particular, do matemático e do cientista. É a do matemático que nos interessa aqui. Como o matemático poderia intuir e compreender o JI? Começando por oferecer um modelo sobre essa importante questão da representação de segundo nível.

                A imaginação dos números 1, 2 e 3 encontra-se enraizada no inconsciente. Certos animais são capazes de distingui-los. Entretanto, não possuem, provavelmente, a informação de segundo nível, o conjunto              {1, 2, 3} que simboliza a representação de que números foram representados. É da natureza psíquica humana essa propriedade a mais. A colocação de chaves é um modelo matemático simples e eficiente para indicar a capacidade da psique humana de representação de segundo nível. As operações entre conjuntos também são bastante sugestivas para imaginarmos a capacidade de criação de informação de segundo nível: {1, 2, 3} È {4, 5} = {1, 2, 3, 4, 5}, ou ainda, {1, 3, 5, 6} Ç {1, 5, 8, 9} = {1, 5}. Ou seja, além de representar as representações instintivas segundo uma certa seleção, a psique humana ainda é capaz de relacionar duas delas, ou mais, formando uma nova representação a partir dessas informações de segundo nível. A Matemática, portanto, se confunde com a razão da psique humana.

                Assim sendo, como a Matemática cresce ilimitadamente, segue-se que a consciência também cresce. Se um indivíduo decide jogar o JI acreditando nesse postulado, então há algumas perguntas interessantes a serem feitas por ele.

                Faremos, aqui, algumas hipóteses fundamentais e, portanto, imaginaremos um indivíduo muito específico jogando o JI, um matemático. O nosso indivíduo matemático, aparentemente, não aceita mágica, forças sobrenaturais e nenhum tipo de deuses. Para enfrentar a profunda sensação de solidão resultante dessa escolha, agarra-se à intuição de que sua consciência pode crescer e adquirir conhecimento sobre si mesmo.

                Pergunta, então, por exemplo, como se dá a passagem da matéria inanimada para a matéria viva.

                O modelo matemático que propõe para imaginar a si próprio para jogar o JI é que a matéria torna-se viva quando suas propriedades “flutuam”. Isto é, quando suas matérias componentes m1, m2, ... , mn, ... , ou energias componentes, passam a ter as probabilidades p1, p2, ... , pn, ... , ou porcentagens de expressão. Como exemplo, imaginamos hipoteticamente que um elétron que passasse a se comportar como onda segundo a probabilidade de 10 % das vezes em que fosse observado teria se tornado vivo. Sua propriedade de ser onda flutuaria segundo essa probabilidade. O nosso indivíduo vive, isto é, joga o JI, imaginando-se como um ser incerto portando uma quantidade de incerteza H. Para calcular a essência de ser um ente incerto, toma a fórmula de Shannon:

H = p1 log p1  + p2 log p2 + ... + pn log pn + … .

                Trata-se da importante fórmula da entropia da Teoria da Informação de Shannon. Portanto, o nosso indivíduo particular pode imaginar o seu ser como uma flutuação de possibilidades e a quantidade total de incerteza que constitui seu ser é dada pela famosa fórmula acima. Quando p tende a zero por valores positivos, p log p também tende a zero, pois pp tende a 1. Qualquer base de logaritmos serve para essa fórmula.

                Em termos teóricos, o nosso indivíduo matemático particular dá-se por satisfeito, mas na prática quer saber como neutralizar o sofrimento psíquico. Precisa saber como as probabilidades acima contribuem para o seu sofrimento ou seu prazer por estar vivo e, portanto, não lhe é útil apenas saber que sua essência é a de um “ser material flutuante”. É necessário saber como suas energias componentes configuram seu ser flutuante. É assim que o nosso indivíduo matemático vai, então, buscar a estrutura Freudiana ou Junguiana da psique humana.

  

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