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A HIPÓTESE DE RIEMANN E A
INTERNET (I)
Em 1740, o matemático suíço Leonhard Euler (1707-1783)
introduziu a função Zeta:
.
A função Zeta é uma série infinita que converge para todo número
real s > 1 e Euler demonstrou que ela se expressa como um produto
infinito convergente, atualmente conhecido como produto de Euler,
onde o produto é tomado sobre todos os números primos pn.
Sendo assim temos:
.
Em 1859 o matemático alemão Bernhard Riemann, um dos pioneiros da matemática
atual, tratou a função Zeta como uma função de uma variável complexa z.
Por esse motivo, a função é conhecida como função Zeta de Riemann.
A função Zeta não possui zeros na região do plano complexo onde Re(z)
1;
se Re(z)
0 os seus zeros
são z = -
2, -
4, -
6,...; e ela possui infinitos zeros, chamados
zeros não-triviais, na região do plano complexo 0 < Re(z)
< 1.
Riemann conjecturou que os zeros não triviais se encontram na reta Re(z)
= ½.
Essa conjectura é chamada de Hipótese de Riemann. A demonstração do
Teorema do Número Primo por Hadamard e de la Vallée-Poussin, em 1896, tinha um raciocínio crucial mostrando
que
quando Re(z) = 1, ou seja, a função Zeta não possui zeros na
reta Re(z) = 1.
Em 1914, o brilhante matemático britânico Godfrey Hardy demonstrou que infinitos zeros da função
Zeta se encontram na reta Re(z) = ½. Sabe-se que os primeiros
1,5.109 zeros na região 0 < Re(z) < 1 estão
todos na reta Re(z) = ½. Entretanto, aguarda-se uma demonstração da Hipótese de Riemann.
Essa conjectura é considerada um dos maiores e mais interessantes problemas em aberto de toda a Matemática, pois, além
de revelar um conhecimento profundo da
distribuição dos números primos, ela também está relacionada a um dos
problemas atuais da maior importância: a segurança na internet.
Quando escrevemos uma carta de instruções para compra de ações, ou fazemos
uma transação bancária em um caixa eletrônico, dependemos do conhecimento
matemático sobre o comportamento dos números primos, para manter a segurança
do sistema.
Por outro lado uma demonstração da Hipótese de Riemann poderia levar a
grandes conquistas na investigação da fatoração de números grandes e
colocar em perigo as técnicas utilizadas
atualmente para manter a segurança da rede mundial de computadores.
A questão de se manter uma mensagem secreta, de tal forma que somente o
destinatário almejado possa compreendê-la, é um problema antigo,
especialmente se pensarmos em questões
militares, diplomáticas ou comerciais. A maneira encontrada, para que alguém não
autorizado que tenha acesso a uma mensagem não a compreenda, foi cifrá-la.
A criptologia é a disciplina que lida com os sistemas sigilosos e as suas
origens remontam à Antiguidade Clássica, quando os gregos propuseram a
seguinte solução: um escravo mensageiro
tinha os seus cabelos raspados e a mensagem copiada em seu couro cabeludo. Após
o crescimento do cabelo, ele era mandado ao destino da mensagem. O destinatário raspava o cabelo do escravo e
lia a mensagem. É claro que sempre havia a
possibilidade de o escravo ser interceptado pelo inimigo.
O imperador romano Júlio César propôs uma outra solução, denominada
atualmente de cifra de César, para tornar secretas as mensagens que enviava
para seus generais em missões na Europa.
A mensagem escrita era modificada de modo que cada letra da mensagem era transformada em três letras
seguintes do alfabeto latino e as três últimas letras correspondiam às
primeiras do alfabeto da seguinte maneira: D corresponderia a A, E corresponde a
B, ... , Y corresponderia a V, ... , A corresponderia a X, ... , C corresponderia a Z.
Dessa maneira, a famosa frase de Júlio César “VENI.VIDI.VICI.” (“Vim.
Vi. Venci.”) tornava-se “YHQL.YGLG.YLFL.” Júlio César inventou,
portanto, um dos primeiros
cripto-sistemas.
A criptografia é uma disciplina dentro da criptologia
que lida com o projeto e implementação
de sistemas sigilosos e a cripto-análise é a disciplina que lida com a decifração desses sistemas sigilosos.
Cifrar é o procedimento de transformar uma mensagem em um texto cifrado. Ou seja, modificam-se as letras da mensagem
por meio de uma transformação especificada. A chave determina uma
transformação particular de um conjunto de transformações possíveis.
O processo inverso de cifrar é conhecido como decifrar ou decifração. O destinatário desejado da mensagem possui o
método para fazer a sua decifração. Esse processo é diferente do processo que alguém, que não seja o
destinatário desejado, utiliza para tornar a mensagem inteligível, processo
chamado de cripto-análise.
Um cripto-sistema é constituído de um conjunto de mensagens admissíveis, um conjunto de mensagens cifradas possíveis,
um conjunto de chaves, onde cada chave especifica uma função
criptografia particular, e as suas correspondentes funções decifração.
Devido à possibilidade de se interceptar mensagens e decifrá-las, houve um
esforço muito grande, por parte dos cientistas, para se desenvolver métodos
seguros. Em geral, nos cripto-sistemas
atuais, o procedimento de cifrar consiste em um programa
computacional, ou um chip, e uma chave consiste em um número escolhido
secretamente.
A chave escolhida é imprescindível para cifrar a mensagem e o texto cifrado
resultante só poderá ser decifrado com o auxilio de outra chave secreta e
exclusiva de um único usuário do
cripto-sistema. Dessa forma, o programa que cifra pode ser usado por muitas
pessoas e por um certo período de tempo, pois a segurança é “garantida”
pela chave secreta e exclusiva.
Nos primeiros sistemas com chave, as pessoas que desejavam comunicar-se possuíam
uma chave comum. Essa condição trouxe algumas desvantagens. Por exemplo, as transações comerciais ou bancárias
envolvendo pessoas de diferentes partes do globo
se mostraram inviáveis, pois, para manter o sistema seguro, as pessoas
tinham que concordar quanto a uma chave comum, mas como se comunicar
secretamente para escolher a chave?
Na década de 70, a noção de chave pública criptográfica foi introduzida e
com
o desenvolvimento dos cripto-sistemas de chave pública houve um grande
progresso. As principais características
desse sistema são a chave pública, a simplicidade e a eficiência, pois, a dificuldade para se violar uma mensagem
cifrada é muito grande. Essa idéia foi proposta em 1976 pelos matemáticos
Whitifield Diffie e Martin Hellman.
Na criptografia de chave pública, duas chaves são exigidas, uma para cifrar e outra para decifrar. Suponhamos que um novo
usuário X obtenha o programa padronizado usado por todos os membros de uma
certa rede. O usuário X gera duas chaves: uma chave para decifrar mensagens,
que ele mantém secreta, e uma outra chave que ele utiliza para cifrar mensagens
a serem enviadas para ele por qualquer outra pessoa da rede. Essa última ele
publica em um diretório dos usuários da rede.
Sendo assim, para enviar uma mensagem a X, o que se deve fazer é procurar a chave pública dele, cifrar a mensagem,
usando essa chave, e enviá-la. Para decifrar a
mensagem não basta conhecer a chave pública, que inclusive está disponível
para qualquer pessoa. É necessário, também, conhecimento da chave que a
decifre, que é conhecida apenas por X.
Inúmeros métodos foram desenvolvidos para se implementar a idéia de Diffie e Hellman, porém, a que recebeu maior apoio e
que permanece até hoje como padrão foi
obtida por Rivest, Shamir e Adleman. Esse cripto-sistema, denominado RSA devido
às iniciais de seus autores, é o sistema criptográfico de chave pública mais
utilizado.
A segurança é baseada na fatoração de números inteiros. X escolhe dois números
primos p e q, cada um tendo pelo menos 100 dígitos. Esses primos
são gerados aleatoriamente por
computadores para que não haja violação do sistema. A chave secreta de
decifração consiste nesses dois números primos. A chave pública
que cifra é o produto n = pq
desses primos. Como não há método rápido para se fatorar completamente números
inteiros grandes, o sistema se mantém seguro porque, como ninguém consegue
descobrir p e q, digamos, em menos de um ano, dá tempo de terminar a transação
sem a interferência de intrusos.
Na próxima coluna voltaremos a esse tema apaixonante quando introduziremos a
aritmética modular necessária para se entender com mais detalhes o
cripto-sistema RSA.
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