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Leonhard Euler
No
período de aproximadamente 100 anos, que sucedeu o ano de 1650, a Teoria dos
Números ficou adormecida. Esse período foi marcado por um desenvolvimento
indescritível na ciência devido ao surgimento do Cálculo e o seu conseqüente
desenvolvimento denominado de Análise Matemática por Issac Newton
(1646–1716), Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), a família
Bernoulli (Jacob, 1655-1705; Johann I, 1667-1748; Nicholas II,
1687-1759; Daniel 1700-1792), e Leonhard Euler (1707-1783).
No
final do Século XVI o cientista italiano Galileu Galilei inaugurou a Ciência,
no sentido moderno do termo, pois foi o primeiro a realizar experimentos de
forma ordenada e sistemática, supondo que a Natureza obedece a leis matemáticas,
descobrindo dessa forma algumas leis da natureza formuladas matematicamente.
Galileu
seguia a concepção dos filósofos da Grécia Antiga e, portanto, para ele,
Matemática significava Geometria Euclidiana, enquanto que Ciência
significava “Filosofia Natural”. Sob essa visão problemas matemáticos
eram geometrizados, ou seja, procuravam-se soluções em termos de construções
geométricas.
Contudo
na época de Galileu a Álgebra já havia sido introduzida na Europa.
Desenvolvida por filósofos islâmicos da Pérsia, que por sua vez haviam
aprendido com os matemáticos indianos, a palavra Álgebra foi derivada do árabe
al-gabr (“ligar conjuntamente”) e essa concepção se resumia no seguinte
processo:
“redução
do número de quantidades desconhecidas ligadas ao problema que se deseja
resolver e, a seguir, ligá-las conjuntamente em um sistema denominado de equação,
sendo o passo seguinte o de se encontrar a solução da equação”.
Coube
ao brilhante filósofo e matemático René Descartes a unificação da
Geometria e da Álgebra. Assim, concepções distintas criadas para resolver
problemas matemáticos que provinham de culturas distintas deram origem a uma
das maiores invenções da Matemática:
“A
Geometria Analítica”.
A
Geometria Analítica consistia de um método que tornava as equações algébricas
“visíveis” como formas geométricas. Por exemplo, a equação x + y
= 1, passava a ter uma representação geométrica, ou seja, a equação era
representada graficamente por uma reta.
A
representação gráfica de uma equação algébrica correspondia a um ente da
geometria. Uma reta não estava mais localizada no plano de Euclides, mas sim
no plano cartesiano formulado por Descartes. Analogamente, equações
envolvendo x e y correspondiam às curvas no plano cartesiano.
Por exemplo, à equação x2 + y2 =
1 correspondia no plano cartesiano uma circunferência de centro na origem
(0,0) e raio unitário.
Essa
invenção de Descartes permitiu que Galileu formulasse as leis da mecânica
que descobriu, tanto algebricamente como geometricamente. Contudo um problema
permanecia: como encontrar uma equação que descrevesse o movimento de um
corpo animado de velocidade variável, acelerado ou desacelerado? Ou seja,
Galileu e seus contemporâneos não eram capazes de expressar,
matematicamente, a velocidade exata de um corpo com aceleração num dado
instante, pois a velocidade mudava a cada instante.
Coube
ao gênio da ciência clássica Isaac Newton, e ao matemático e filósofo
alemão Gottfried Wilhelm Leibniz, resolver essa questão que atormentava
matemáticos e filósofos por vinte séculos, desde os sofistas gregos.
De
modo independentemente, Newton e Leibniz, um século após Galileu, inventaram
um método genial que daria fim a essa questão. Nascia o Cálculo Diferencial
e Integral que se mostraria uma das maiores aquisições intelectuais do mundo
ocidental.
Os
métodos da Análise Matemática sempre desempenharam um papel fundamental na
pesquisa em Teoria dos Números. Essa parceria entre Análise e Teoria dos Números
tem suas origens no trabalho de Euler e foi amplamente desenvolvimento pelo
matemático L. P. G. Dirichlet.(1805-1859).
Leonhard
Euler foi um dos maiores matemáticos de todos os tempos. Ele publicou
aproximadamente 500 artigos em vida e, aproximadamente, 350 artigos póstumos
apareceram. Apesar de ter ficado cego de um olho quando jovem, e ter ficado
completamente cego aos sessenta anos, ele trabalhou em praticamente todas as
áreas da Matemática e da Física. Além disso, escreveu livros notáveis
sobre Álgebra, Trigonometria, Cálculo, Mecânica, Dinâmica, Cálculo de
Variações, Astronomia, Artilharia, Ótica e muito mais.
Sua
investigação original foi fundamental para a Matemática dos Séculos XVIII
e XIX devido à sua criatividade, inspiração e genial capacidade de unificar
e sistematizar todo o conhecimento produzido até então.
Euler
foi o primeiro matemático a aplicar as idéias da Análise a problemas de
Teoria dos Números. Na verdade, como se observou posteriormente, ele estava
utilizando técnicas da Teoria das Funções Complexas. Dessa forma, atacou
dois problemas fundamentais da Teoria dos Números.
O
primeiro problema da Teoria dos Números em que Euler aplicou os métodos analíticos
diz respeito a soluções inteiras de equações. Para determinar as soluções
inteiras de uma equação linear, Euler criou um método que se tornou
conhecido como Método das Funções Geradoras (Generating Functions).
O
método das funções geradoras se mostrou tão genial que levou à criação
do Método do Círculo de Hardy-Littlewood-Ramanujan (Circle Method) cujo
desenvolvimento, por sua vez, levou a um dos métodos básicos da Teoria Analítica
dos Números Contemporânea: o método das somas trigonométricas de
Vinogradov (Method of Trigonometric Sums).
Essa idéia levou à criação do ramo da Teoria Analítica dos Números
conhecida como “Teoria Aditiva dos Números”.
O
outro problema se relacionava com o comportamento da seqüência de números
primos no conjunto dos números inteiros positivos. Euler deu uma nova
demonstração do Teorema de Euclides sobre a existência de infinitos números
primos baseando-se em argumentos analíticos. A idéia de Euler mostrou-se
bastante frutífera e deu ímpeto ao desenvolvimento de uma linha importante
de pesquisa em Teoria Analítica dos Números: a “Teoria Multiplicativa dos
Números”.
A
fórmula

foi
descoberta por Euler aproximadamente em 1735.
Euler
ficou bastante satisfeito em demonstrar o fato misterioso de que essa soma
relaciona-se ao número
. Na verdade, a identidade acima representa um valor especial calculado em uma
classe de funções chamada de Funções Zeta (“zeta functions”).
Observe
que, se demonstrarmos que z
define uma função, então
.
Euler
demonstrou que para todo número real s > 1, a série

define
a função

denominada
função zeta.
Euler
demonstrou a existência de um número infinito de números primos
utilizando-se das propriedades analíticas dessa função. Existe uma relação
entre a Função Zeta e o conjunto dos números primos denominada de Produto
de Euler. O produto de Euler é uma expressão analítica da fatoração única
de inteiros como produto de números primos:
para
s > 1, onde o produto à direita é tomado para todos os números primos.
È
interessante observar que o Produto de Euler implica, em particular, que

para
s > 1.
A
Função Zeta introduzida por Euler se revelou um dos personagens mais
importantes da Teoria dos Números, pois apresenta propriedades aritméticas
preciosas. Alguns matemáticos costumam dizer que Teoria dos Números é o
estudo de Funções Zeta.
No
Século XIX o matemático Bernard Riemann definiu a Função Zeta no conjunto
dos números complexos e, devido às suas inúmeras e fundamentais contribuições
ao estudo dessa função, hoje ela é conhecida como “Função Zeta de
Riemann”.
Uma
nova jornada se iniciava com Riemann. Ele fez uma conjectura denominada
Hipótese de Riemann que até hoje é um dos maiores
desafios para os matemáticos mais brilhantes. A Hipótese de Riemann será o
tema de nossas próximas colunas.
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