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A
DISTRIBUIÇÃO DOS NÚMEROS PRIMOS E O CRIVO DE ERATÓSTHENES
Sabemos que
existe um número infinito de números primos e que todo número inteiro,
diferente de zero, se expressa como um produto de números primos. O número
12 se expressa como 22.3,
o produto dos primos 2, 2 e 3. Como podemos saber se um número é primo? Será
que existe um algoritmo, ou seja, um processo com um número finito de passos
para decidirmos se um número é primo ou composto como o 12?
Essa questão
já apaixonava a mente dos matemáticos gregos da antiguidade clássica e a
resposta é positiva. Se quisermos saber se o inteiro positivo n >1
é primo, basta verificar se n é divisível por inteiros m
menores que n. Contudo, essa idéia pode ser refinada, pois se
demonstra que é suficiente verificar a divisibilidade de n pelos
primos menores ou iguais a Ön.
Ou seja, afirmamos que, se n é não é um número primo, então existe
um primo p tal que p divide n e p <=
Ön.
De fato, como estamos assumindo que n não é um número primo, n
é então um número composto e, portanto, pode ser decomposto como n =
ab. Se a > Ön
e b > Ön,
então n = ab > (Ön)
(Ön)
= n, uma contradição. Portanto, temos
a <=
Ön
e b <=
Ön,
e todo primo p que divide a satisfaz p <=
a <=
Ön.
Assim, os inteiros primos x, tais que x <=
Ön,
são os únicos que precisamos testar para acharmos os divisores de n.
Ou seja, basta dividirmos n
por 2, 3, 5, ... , até encontrarmos o maior inteiro menor que Ön.
Por exemplo,
gostaríamos de saber se o número 107 é primo. A raiz quadrada de 107 está
entre 10 e 11, isto é, 10 < Ö107
< 11. Então, testamos se 107 é divisível por 2, 3, 5, 7. Mas 107 não é
divisível por esses primos. Concluímos que o número 107 é primo. Por outro
lado, o mesmo processo nos permite determinar os fatores primos de um número
composto. Como um outro exemplo, se n = 319, então sua raiz quadrada Ö319
está entre 17 e 18 e, portanto, testamos sua divisibilidade pelos primos
menores ou iguais a 17. Constatamos que 319 = 11.29, isto é, 319 é o produto
de 11 por 29. Para decompor 29 em
fatores primos, testamos a sua divisibilidade pelos primos menores ou iguais a
5, pois a raiz quadrada de 29 está entre 5 e 6. Como 29 não é divisível
por 2, 3 e 5, concluímos que 29 é primo e, portanto, 319 = 11.29 é a
decomposição de 319 em fatores primos.
Observemos que
esse algoritmo é baseado na divisão e, apesar de o algoritmo funcionar, se
considerarmos números altos teremos de empreender um número enorme de divisões,
o que consumiria muito tempo. O matemático Eratóstenes de Cirene, contemporâneo
de Arquimedes e Aristarco, autor do mais célebre cálculo da Antiguidade para
o raio da Terra, desenvolveu um método sistemático para obtenção dos
primos menores que um dado número, utilizando a
multiplicação ao invés de a operação de divisão, o que torna o
algoritmo mais fácil de ser implementado. Esse algoritmo é conhecido como
crivo de Eratóstenes, ou método do crivo. Eratóstenes nasceu em 276 a.C.,
faleceu em 196 a.C., estudou filosofia em Atenas e foi diretor da famosa
biblioteca de Alexandria, além de ser um eminente matemático, geógrafo,
historiador, filólogo e poeta. O crivo de Eratóstenes determina todos os números
primos inferiores a um certo número x dado. Portanto, ele determina os
fatores primos de números compostos inferiores a x.
Observemos que
todo número composto n possui um divisor menor ou igual à sua raiz
quadrada Ön.
Isso sugere um procedimento para se construir a lista de todos os números
primos que não excedem um número inteiro x, se os primos menores que Öx
já são conhecidos. Consideremos os inteiros, de 2 até x, listados em
ordem crescente. Vamos manter os primos de 2, 3, 5, ..., até Öx,
e descartar todos os seus múltiplos.
Em geral, como
removemos os múltiplos de algum primo pr
dessa lista, o primeiro inteiro remanescente, maior que pr,
também é um número primo, digamos pr+1.
De fato, caso contrário ele seria divisível por algum primo menor (na
verdade, menor que sua raiz quadrada) e já teria sido removido. Observe também
que não precisamos nos preocupar com os inteiros menores que (pr+1)2,
pois os números compostos menores que (pr+1)2
já foram removidos, pois todos possuíam um fator primo menor que pr+1.
Sendo assim, é suficiente iniciar-se cada etapa removendo os múltiplos de pr+1
e descartando (pr+1)2.
Como exemplo,
vamos determinar todos os números primos inferiores a 23 utilizando o método
do crivo. Na lista abaixo, a representação do número em negrito significa
que ele foi descartado em uma etapa do algoritmo. Por exemplo, 6 é descartado
por ser múltiplo do primo 2.
Temos: 2, 3, 4,
5, 6, 7, 8,
9, 10,
11, 12, 13, 14,
15, 16,
17, 18, 19, 20,
21, 22,
23. Portanto 2, 3, 5, 7, 11, 13, 17,19 são os inteiros primos menores que 23.
O método do
crivo é eficiente para se obter uma lista dos primos menores que um inteiro não
muito alto e, desde a época de Eratóstenes, o método tem sido utilizado
para estimar o número de primos em um intervalo. Contudo, se tentarmos obter
uma lista de inteiros que foram descartados, para se obter uma fórmula para o
número exato, ou aproximado, de primos p
x, teremos sérias dificuldades. O método do crivo tem sofrido uma série
de aperfeiçoamentos ao longo do tempo. Os matemáticos Brun, Rademacher,
Meissel, e especialmente Selberg, generalizaram o método do Crivo e, dessa
forma, muitos problemas clássicos da Teoria dos Números foram reestudados
com sucesso.
Dois números
primos se dizem primos gêmeos se a diferença entre ambos é 2. Alguns
exemplos de pares de primos gêmeos são: 3 e 5, 5 e 7, 11 e 13, 17 e 29, 29 e
31, 41 e 43. Os estudiosos de Teoria dos Números conjeturam, mas não sabem
demonstrar, que existem infinitos primos gêmeos. O matemático norueguês
Brun, em 1919, desenvolveu o método do crivo duplo e conseguiu algumas
estimativas quanto ao número de primos gêmeos.
Em
1950 o matemático norueguês A. Selberg ganhou
a Medalha Fields (a maior distinção para um matemático), por ter
desenvolvido um método extraordinariamente eficiente de estimar a distribuição
dos números primos. Essa premiação representa um marco, pois foi a primeira
vez que um matemático ganhou uma Medalha Fields com um trabalho em Teoria dos
Números. Selberg obteve estimativas muito mais precisas
utilizando seu refinamento do método do crivo e assim resolveu muitos
problemas clássicos em Teoria dos Números. Selberg deu uma demonstração
elementar da lei assintótica da distribuição dos números primos, ou seja,
do Teorema do Número Primo. Os matemáticos Hadamard e de la Vallée-Poussin
deram, em 1897, a primeira demonstração desse teorema utilizando análise
matemática, mais precisamente, Teoria
das Funções Complexas. O Teorema do Número Primo avalia a freqüência de
ocorrência dos números primos, em outras palavras, a velocidade de
crescimento da quantidade de números primos na seqüência dos números
inteiros positivos. Graças a Atle Selberg e Paul Erdös foi possível
obter-se uma demonstração do Teorema do Número Primo, completamente baseada
em estimativas, sem a utilização de Análise Complexa. As investigações de
Selberg em Teoria Analítica dos Números facilitaram avanços em uma série
de espinhosos problemas e revelou elos inusitados entre a Teoria dos Números
e outras áreas da Matemática. Por exemplo: teoria dos grupos discretos e
formas automórficas, representações de grupos de Lie semi-simples, a teoria
da função Zeta de Riemann e muitas outras.
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