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Mentes brilhantes
Os autores desse artigo nunca ouviram falar de
projetos sérios de escolas especiais no Brasil para crianças e
jovens de grande talento e gênios. Não só escolas são importantes,
mas a sociedades deveriam se empenhar em custear o desenvolvimento de
mentes brilhantes. Opostos a isso estão as péssimas escolas, fábricas
de despreparados para qualquer coisa, e as escolas de qualidade
duvidosa que produzem a ilusão do pensamento fácil, a ilusão da
obra rápida e a ilusão do consumismo.
Uma única mente brilhante é capaz de
beneficiar a humanidade mais do que a soma de todas as capitanias
hereditárias, todos os coronéis, reis e políticos juntos, possíveis
e imagináveis, da história de um país. Em 1995, o inglês Andrew
Wiles demonstrou, finalmente, o Último Teorema de Fermat que estava
em aberto desde o Século XVI. Wiles dedicou sua mente ao problema
desde os doze anos de idade. Por volta de seus dezessete anos
interrompeu sua dedicação para ocupar a mente com outros problemas
notáveis da Teoria dos Números, da Álgebra e da Geometria Algébrica.
Alguns anos antes de atingir a idade de quarenta anos, Wiles teve a
oportunidade histórica de dedicar novamente sua mente brilhante ao
mais famoso problema da História da Matemática e resolvê-lo.
Nem uma doença mental terrível e cruel
pode impedir uma mente brilhante de produzir uma obra de incalculável
valor para a humanidade. John Nash é um símbolo contemporâneo dessa
possibilidade. Um pouco pode ser conhecido sobre sua mente brilhante
no filme “Uma Mente Brilhante”.
Aliás, pode tornar-se ridícula a
comparação entre a obra de uma mente brilhante e a obra de mentes
politiqueiras. Compare-se a obra de Isaac Newton com a obra de todos
os reinados da Inglaterra. Compare-se a obra de Albert Einstein com a
obra política de quem quer que seja. Compare-se a obra do funcionário
da AT&T, o matemático Peter Shor, com a obra de todos os chefes
de seção e gerentes ou diretores dessa ou de qualquer outra empresa
de qualquer lugar do mundo. Peter Shor já escreveu a base matemática
dos códigos quânticos. É covardia estender mais essa linha de
comparação.
A obra dos mais de setecentos cientistas
da Microsoft (os matemáticos são comandados por Michael Freedman,
Medalha Fields) influenciará mais a humanidade do que toda a riqueza
já gerada, e a ser ainda gerada, pela empresa que vale hoje 400 bilhões
de dólares. O próprio Bill Gates sabe disso, pois foi ele quem
mandou contratar essas mentes brilhantes.
Também não sabemos se na Rússia
existe tal preocupação em cultivar bem as mentes talentosas e gênios.
O fato é que, poucas vezes, essas mentes, mesmo sem qualquer apoio ou
proteção social, sobrevivem e realizam uma obra que afeta
profundamente, não o seu país apenas, mas a humanidade e, quem
poderia negar, talvez o próprio universo. Parece
que nesse país de história matemática fantástica surgiu mais um
fenômeno de mente brilhante. Trata-se de Grigory (“Grisha”)
Perelman. Em novembro de 2002, Perelman divulgou um artigo que logo
foi reconhecido por matemáticos como relevante para a solução da
famosa Conjectura de Thurston e, em particular, da ainda mais famosa
Conjectura de Poincaré. Em março de 2003, Perelman publicou o
segundo artigo nessa linha de pensamento. De abril a maio de 2003, ele
visitou importantes centros de pesquisa Matemática nos Estados
Unidos, como o MIT em Boston e a Universidade de Nova Iorque em Stony
Brook.
Outras mentes brilhantes estão tentando
achar erros na obra de Perelman. O mesmo ocorreu em 1994 com a obra de
Wiles, quando seu próprio orientador de doutorado, John Coates, achou
um ponto inexplicado na seqüência lógica que levava à conclusão
do Teorema de Fermat. Isso custou a Wiles mais um ano de dedicação
de sua mente, junto com o ex-aluno Richard Taylor, para conquistar o
famoso resultado do francês Pierre de Fermat.
Uma outra mente brilhante, Richard S.
Hamilton, da Universidade de Columbia em Nova Iorque, fora premiado
pelo Clay Institute de Boston, no final de 2003, pela sua dedicação
e pelos avanços conseguidos no problema da Conjectura de Thurston,
que é muito mais ampla, e muito mais difícil, do que a Conjectura de
Poincaré. O matemático William P. Thurston, da Universidade de
Cornell, em Ithaca, no estado de Nova Iorque, recebeu também a
Medalha Fields em 1983 pela obra realizada por sua mente brilhante.
Uma circunferência é um objeto matemático
bem fácil de imaginar. Ela tem propriedades interessantes: (1) é
formada por um único pedaço, (2) subconjuntos infinitos de pontos
sempre se acumulam em torno de algum ponto, (3) não há ponto final
nem inicial e (4) um segmento perpendicular a ela, apontado para fora,
pode percorrê-la voltando ao ponto inicial apontando para fora do
mesmo jeito que saiu. Outro fato interessante é que ela tem dimensão
um. Isto é, para descrevermos qualquer parte dela basta utilizarmos
apenas uma variável. Na verdade, se retirarmos imaginariamente uma
parte dela, veremos que essa parte é exatamente igual a um intervalo
de números reais, e basta uma variável x para percorrer esse
intervalo. Há uma particularidade notável sobre a circunferência:
se ela for representada por um elástico, você não conseguirá
deformá-la, sem usar o espaço em torno dela, até amassá-la em um
ponto.
A superfície de uma laranja, ou de uma
bola, é um objeto muito parecido com a circunferência. Os matemáticos
dizem que essa superfície chamada de esfera é uma circunferência de
dimensão dois. Se recortarmos imaginariamente um pedaço da esfera,
veremos que ele se assenta perfeitamente sobre o plano de uma mesa.
Podemos retirar um pedaço da casca de uma laranja, na forma de um retângulo,
e ajeitá-lo sobre uma mesa. Portanto, dizemos que a esfera é,
localmente, plana. Para descrevermos um retângulo precisamos de duas
variáveis x e y, pois temos que dar conta da largura e
do comprimento. É por isso que os matemáticos dizem que a esfera tem
dimensão dois. Também vale para a esfera: (1) é formada por um único
pedaço, (2) subconjuntos infinitos de pontos sempre se acumulam em
torno de algum ponto, (3) não há ponto final nem inicial e (4) um
segmento perpendicular a ela, apontado para fora, pode percorrê-la
voltando ao ponto inicial apontando para fora do mesmo jeito que saiu.
Há, portanto, uma grande semelhança entre a circunferência e a
esfera: elas são (1) conexas, (2) compactas, (3) sem bordo e (4)
orientáveis.
Se imaginarmos um elástico envolvendo a
laranja, então poderemos facilmente deslocá-lo, sem escapar da casca
da laranja, amassando-o até que fique comprimido em um ponto. Isso se
torna possível porque a esfera tem dimensão dois e o elástico é
uma circunferência de dimensão um. Objetos de dimensão um podem ser
deformados dentro de um espaço de dimensão dois. A esfera é dita
“simplesmente conexa” porque ela permite que circunferências, sem
escapar dela, se deformem dentro dela até se transformar em um ponto.
Lembre-se que isso não acontece com a circunferência, pois ela mesma
não pode se deformar em um ponto sem escapar de si mesma para o espaço
que a circunda.
Observemos que a circunferência só
pode ser visualizada em um plano, assim como a esfera só pode ser
visualizada no espaço tridimensional. É por isso que não podemos
visualizar a circunferência de dimensão três. Ela só cabe
em quatro dimensões. Poincaré afirmou que ela é o único espaço
(1) conexo, (2) compacto, (3) sem bordo, (4) orientável e (5)
simplesmente conexo de dimensão três.
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