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Princípios
e ideais de um estudante de matemática do Século 21 (IV)
O que é “estudo axiomático
da Matemática”? Como se faz para se obter e para se conhecer
verdades matemáticas com rigor? O estudante que nunca se perguntar
essas questões jamais iniciará verdadeiramente o seu estudo de Matemática,
pelo menos aquela fascinante Matemática que herdamos de gente como
David Hilbert. Estamos
prontos para o segundo princípio. Não se iluda! Se não
for capaz de alfabetizar-se por si mesmo, e corretamente, em Matemática,
ninguém o fará por você. A sua autonomia intelectual é sua única
esperança de progredir verdadeiramente em Matemática! Você está,
ao mesmo tempo, livre para pensar e condenado a desconfiar de todas as
afirmações que se lhe apresentarem, até que você mesmo as
demonstre ou se convença de que poderia demonstrá-las.
Portanto, confira tudo
que estiver aprendendo de Matemática. Tanto o que está escrito nos
livros, como o que lhe é dito por professores, ou por seus colegas. Não
deixe escapar “seus próprios pensamentos” e sua “intuição”,
pois eles podem enganá-lo ou induzí-lo a erro muito mais facilmente
do que parece.
Em 1931, o matemático
Kurt Gödel, em Viena, na Áustria, demonstrou que, se a Matemática,
fundamentada no Principia Mathematica de Russel e Whitehead, for
consistente, então existem verdades matemáticas que não são
demonstráveis. Imaginamos que seja constrangedor para um estudante de
Matemática, seja ele um futuro professor de Matemática, ou um futuro
Bacharel em Matemática, graduar-se sem ter esse conhecimento tão
fundamental. Temos aqui mais um critério simples, derivado dos dois
primeiros princípios: é interessante saber se seus esforços não
estão se consumindo com Matemática obsoleta; é interessante
verificar por você mesmo se os seus estudos estão contemplando um mínimo
de conhecimento de Lógica Matemática, por exemplo, noções dos
Teoremas de Incompletude de Gödel, e a informação de que ninguém
sabe se a Matemática é consistente ou não!
Por volta de 1974, o
matemático Gregory Chaitin empenhou-se em mostrar que “a maioria
das verdades matemáticas é indemonstrável”. O estudante de Matemática
consciente não se permitiria a ignorância desse fato. Se Gödel
descobriu que “existem verdades matemáticas indemonstráveis”,
somente 40 anos mais tarde se percebeu que era interessante perguntar
se, por acaso, a quantidade de verdades matemáticas indemonstráveis
não seria somente um número irrelevante. Mas Chaitin tem chamado a
atenção para o fato de que esse número não é irrelevante, ao
contrário, o número de verdades demonstráveis é que é
“pequeno”!
Nós, os que aqui
escrevem, passamos por toda a graduação e a pós-graduação
ignorando esse fato. Uma desculpa é que nas décadas de 70 ou de 80 a
informação científica ainda não circulava de modo tão amplo,
eficaz e rápido. Hoje é muito fácil conhecer as idéias de Chaitin,
basta visitar seu site na Internet. Essa idéia de Chaitin é grave e
tem grande repercussão na maneira como devemos estudar Matemática.
Se levarmos essa informação às últimas conseqüências, teremos
que analisar seriamente a possibilidade de mudarmos profundamente
nossas estratégias atuais de estudo e de pesquisa. Não nos
aprofundaremos nessa discussão aqui pois o nosso objetivo agora é
apenas sugerir uns poucos princípios e ideais que, se seguidos pelo
estudante de Matemática, sejam eficientes para a elevação da sua
consciência à altura histórica do Século 21. De qualquer forma, aí
está um exemplo, que aconteceu com esses que escrevem essa coluna, de
que é até muito fácil passar por uma faculdade, na verdade por várias,
ignorando informações fundamentais que já são parte da Matemática.
Não é de se surpreender que haja muitos outros
exemplos. Eles são, inclusive, até dramáticos. Nos anos 70,
enquanto cursávamos nossa primeira faculdade, várias revoluções
espetaculares aconteciam na Matemática, das quais tivemos ignorância
absoluta!
Estudantes regularmente matriculados nas Faculdades
de Matemática brasileiras nas décadas de 70 e de 80 estavam
profundamente ocupados com seus “tópicos antigos de Matemática”
e não puderam tomar conhecimento, àquela época, das revoluções
espetaculares que aconteciam em várias áreas da Matemática. Foi o
caso desses que escrevem essa coluna. Exemplos: a descoberta de que os
fenômenos não lineares não são uma parte irrelevante da Ciência,
muito pelo contrário, são quase que a totalidade da Natureza!
Surpreendentemente, a
descoberta de que as funções de primeiro e segundo grau já revelam,
se estudadas de um certo ponto de vista, o mundo fascinante do Caos,
da emergência da Ordem dentro do Caos, da auto-organização do Caos,
da bifurcação presente universalmente nos fenômenos da Natureza, da
constante de Feigenbaum, da Geometria dos Fractais (chamada por
Mandelbrot de “a verdadeira geometria da Natureza”), e de muito
mais que não poderíamos relacionar aqui. Em outras palavras, a
descoberta fascinante e gravíssima de que a imprevisibilidade e a
irregularidade da Natureza já estão presentes no comportamento de
funções “ridiculamente simples, de uma variável”!
Nossas sugestões têm um
pouco da pretensão de evitar que “o nosso desperdício de tempo”
não seja repetido pelos estudantes atuais que gostam de Matemática e
suspeitam que ela é muito importante. Ninguém aqui está afirmando
que seja fácil cursar uma faculdade de Matemática e, ao mesmo tempo,
conscientizar-se dos principais fatos que ocorrem todos os dias
revolucionando e fazendo avançar a Matemática. Mas existem alguns
fatos sobre os quais o estudante de Matemática jamais aceitará ser
ignorante. Para isso ele deve seguir certos princípios e ideais
nobres que o guiarão por um caminho que contém as principais
paisagens que precisam ser vistas. Como terceiro princípio
sugerimos o seguinte: procurar distinguir livros e textos, que
divulgam didaticamente o conhecimento matemático, dos livros escritos
para especialistas de uma certa área.
O estudante de Matemática
deve procurar os livros e textos que, honestamente, divulgam de modo
competente o conhecimento matemático para um iniciante. Infelizmente
há livros que, ao invés de ajudar, atrapalham e podem até mesmo
provocar prejuízos irreparáveis na formação do estudante. Um livro
não está isento de erros só porque é um livro publicado. O
estudante deve estar atento para o fato de que mesmo bons livros podem
conter erros graves. Assim, o estudante prudente procurará sempre se
inteirar de um assunto específico, qualquer que seja ele, por intermédio
de vários livros, digamos, pelo menos 3! Esse é um número arbitrário,
“um chute”, mas é muito melhor do que uma fonte única e ainda
melhor do que apenas duas fontes de referência.
Há certos “sinais” que sugerem a má qualidade de um livro
ou a ineficiência dele para o progresso do estudante. Por exemplo,
recentemente tomamos contato com um livro de Cálculo “novo no
mercado” que não trazia índice remissivo. Nenhuma razão foi
apresentada pela editora para a colocação de mais um livro de Cálculo
no mercado, o que é estranho pois já existem centenas de livros bons
de Cálculo disponíveis para compra. O estudante deve procurar uma
boa razão para estudar um livro. Se o livro não apresenta índice
remissivo, então ele pode ter sido colocado no mercado com grande
descaso da editora pelos leitores, uma vez que o índice remissivo é
de grande importância para qualquer estratégia de leitura e estudo.
Mais um exemplo: sempre
que examinamos um livro de Cálculo de Várias Variáveis procuramos
pela demonstração do Teorema de Stokes; se ela nos parecer bem
explicada, inteligível e correta, então teremos grande atração por
esse livro. Um outro exemplo vem da Álgebra: um livro sobre Teoria
dos Grupos que não apresenta os Teoremas de Sylow em sua forma
completa, inclusive com a estratégia de demonstração que usa ações
de grupos, descoberta por Wielandt, não merece credibilidade do
estudante do Século 21. A importância desses teoremas e a beleza da
demonstração de Wielandt são imperdíveis para um espírito da Era
da Informação e do Conhecimento.
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