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Princípios e ideais de um estudante
de matemática do Século 21 (III)
O que significa "a Matemática ser
consistente"? Imagine que se formou professor de Matemática e,
um belo dia, alguns alunos muito curiosos, como não é difícil de se
encontrar, pois eles existem independentemente do nível atual de
nosso ensino médio, lhe perguntem: "Professor, a Matemática
funciona mesmo?" "O senhor garante que eu posso
confiar nela?" "Por que nunca encontraremos conclusões
absurdas?" "Por que ela funciona bem para a Física e
por que a Física confia tanto nela?" "Por que se diz
que a Ciência evoluída é aquela que já sabe usar a Matemática?"
"Por que em nosso cotidiano as pessoas contam tanta
mentira?" "Por que é um fato tão comum as pessoas
se agarrarem tão fortemente a estranhas crenças e ilusões?"
"Por que no Brasil é tão pequeno o número de brasileiros
que se dedicam à Ciência e, em especial, à Matemática?"
Num momento como esse você vai sentir toda a responsabilidade que
lhe cabe e esperamos que não se arrependa por ter sido tão "tímido",
ou tão isento de "ambições intelectuais nobres", ou tão
acomodado com a "facilidade" do seu curso de Matemática.
Certamente você sentirá falta de conhecimentos
fundamentais. Talvez, num momento desses, você descubra a qualidade
do curso de Matemática que você freqüentou. Por exemplo, era
fundamental ter aprendido que consistência significa que, em Matemática,
nunca se demonstraram, nem jamais se demonstrarão, duas afirmações
na forma "A é verdadeira" e "A é falsa". Na
verdade, já aconteceram contradições, chamadas paradoxos,
que foram descobertas no início da investigação de diversas
teorias. É parte imprescindível, de sua formação básica em Matemática,
saber que os paradoxos conhecidos foram todos consertados por várias
gerações de matemáticos. Um estudante que nunca foi exposto a essa
informação não pôde ainda apreciar o que a Matemática tem de
fascinante. Que chances terão seus futuros alunos?
É muito comum o estudante deparar-se com uma
disciplina chamada "Fundamentos" que, sob o pretexto de que
"os estudantes chegam à faculdade sem base", é apenas um
disfarce para a comodidade e facilidade de uma aulinha de
"recordação da matemática ginasial e colegial". Em certas
faculdades chega-se até ao requinte de brindar o estudante com
"Fundamentos II"! O estudante universitário tem seu
precioso tempo vital ocupado com "tópicos ginasiais e
colegiais". O estudante de Matemática da Era da Informação e
do Conhecimento ocuparia melhor seu tempo se considerasse seriamente a
Matemática, por exemplo perguntando-se: "como é que se faz para
se alfabetizar em Matemática, como é que se faz para se aprender a
ler com proveito os livros bons de Matemática, como é que se começa
um estudo de Matemática sem enganações, sem subterfúgios, sem
meias verdades, sem omissão das questões delicadas mas fundamentais
de Lógica e de Teoria dos Conjuntos? E, por que não, como é que se
faz para acabar com o medo que alguns professores têm de reconhecer
que seus conhecimentos são anacrônicos e obsoletos para a Ciência
Contemporânea e, por conta disso, se escondem debaixo do lema
"nossos alunos hoje em dia são tão fracos!"? Qual é o mal
em se reconhecer que a melhor coisa que um professor tem hoje a fazer
é arregaçar as mangas e estudar junto com os jovens estudantes? O
jogo está empatado pois, se de um lado muitos alunos têm graves
deficiências, por exemplo em sua capacidade de ler e interpretar
textos, de se expressar com clareza e inteligibilidade na língua mãe,
de outro lado, nós, professores, precisamos começar de novo porque
nossos conhecimentos estão obsoletos e são, em sua maior parte, inúteis
para a Era da Informação e do Conhecimento.
O estudante deve se conscientizar imediatamente de
que o estudo axiomático de Matemática é inevitável e é o único
caminho para quem está cansado de falácias, raciocínios circulares
e frases vazias de significado.
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