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Simetria na Matemática V
Da Física aprendemos que
o “comprimento de Planck” pode ser a menor quantidade produzida
pela Natureza. Os físicos utilizam freqüentemente a “notação
científica” para representar “ordens de grandeza”. Assim, o
comprimento de Planck se escreve como 10-35
metros. Lembremos que o diâmetro de um átomo, só para compararmos,
pode variar de 10-15
metros a 10-10
metros. Portanto, a ordem de grandeza do comprimento de Planck é
vinte vezes menor do que o diâmetro de um átomo: 10-35
= 10-15
´
10-20.
A chave para entendermos a
simetria entre o infinitamente grande e o infinitamente
pequeno é justamente o costume dos físicos de representar ambos
por meio da notação científica. A cada número muito grande,
digamos 1035, fazemos corresponder um número muito
pequeno, nesse caso o número 10-35.
Observemos que o produto desses dois números é 1, pois 10-35
é, no sistema posicional, 0 seguido de vírgula e mais 34 zeros
seguidos de 1, enquanto que 1035 é 1 seguido de 35 zeros
antes da vírgula. Ao multiplicarmos um pelo outro, cada zero antes da
vírgula de 1035 faz a vírgula do outro mudar uma casa
para a direita. Assim ao final obteremos 10-35
´
1035 = 1! Observemos que a conta que fizemos foi como se
estivéssemos simplesmente efetuando 10-35+35
= 100 = 1. Em palavras, mover a vírgula 35 casas para a
esquerda e depois 35 casas para a direita deixa o 1 inalterado.
A vírgula é o divisor de
águas entre o grande e o pequeno. Podemos produzir números cada vez
menores simplesmente colocando zeros após a vírgula, quantos
quisermos, seguidos de qualquer algarismo. Por exemplo,
0,000000000000000000000007. Da mesma forma, e simetricamente, podemos
obter um número cada vez maior escrevendo um algarismo seguido de
quantos zeros quisermos. Por exemplo, 70.000.000.000.000.000.000.000.
Observemos que é muito mais fácil representar números grandes no
Sistema Posicional Decimal do que encontrar nomes para eles.
Em Física não podemos
extrapolar o comprimento de Planck para quantidades ainda menores, mas
em Matemática não há limites para nossa imaginação. Assim como não
se conhece quantidade menor do que o comprimento de Planck, também não
se sabe se há mais de 10100 átomos em nosso Universo
observável.
Em nossa imaginação não há problemas em conceber números como 101000
e 10-1000.
E mais ainda, o produto desses dois é igual a 1! Essa é a parte
interessante. Há uma estrutura multiplicativa notável que
analisaremos com mais detalhes agora.
Todo número da forma 10N
corresponde a outro da forma 10-N
e o produto de um pelo outro é 1. Podemos, então, perguntar: será
que para cada número grande não haveria também um número pequeno
tal que o produto dos dois é sempre 1? Se supusermos isso para todo número
positivo, então temos as seguintes informações sobre os números
positivos:
(a)
todo número positivo admite um outro tal que o produto dos
dois é 1;
(b)
ao multiplicarmos três números positivos podemos fazê-lo em
qualquer ordem;
(c)
o 1 é neutro na multiplicação.
A propriedade (a) é
resultado de nosso desejo de que aquela simetria interessante entre
grande e pequeno se estenda para todos os números positivos. A
propriedade (b) é resultado de nosso desejo de não estragar um
conhecimento que já tínhamos sobre a multiplicação, o de que não
importa a ordem na qual multiplicamos três números. Finalmente, a
propriedade (c) é uma observação muito útil e importante. Ela nos
diz que o 1 é um elemento neutro na multiplicação de números.
Porém, surge
imediatamente uma dúvida: por que diabos selecionamos justamente
essas três propriedades? Porque três é o número mínimo de
propriedades que precisamos para descrever uma simetria. Números que
satisfazem essas três propriedades formam uma estrutura simétrica
chamada grupo. Essa estrutura simétrica chamada grupo tem sido
muito utilizada na Física para medir simetrias da Natureza, e tem
gerado uma quantidade enorme de novos conhecimentos na própria Matemática.
Os números inteiros
positivos e negativos formam um grupo, mas em relação à adição.
Isto é, para inteiros consideramos as mesmas três propriedades acima
trocando a palavra multiplicação por adição, o que nos obriga a
trocar também o elemento neutro que passa a ser o zero. Dizemos que a
simetria dos inteiros é aditiva enquanto que a simetria dos números
positivos grandes e pequenos é multiplicativa. Para os inteiros
escrevemos:
(a) todo número inteiro
admite um outro tal que a soma dos dois é 0;
(d)
ao adicionarmos três números inteiros podemos fazê-lo em
qualquer ordem;
(e)
o 0 é neutro na adição.
Pode-se perguntar agora:
por que ficamos sem os negativos na simetria entre grandes e
pequenos?
Essa pergunta é interessante e necessária nesse momento. A resposta
é que há uma cópia simétrica quase perfeita do grupo
multiplicativo dos positivos grandes e pequenos se colocarmos os
positivos com sinal negativo do lado esquerdo do 0 em uma reta numérica.
Todo positivo grande ou pequeno tem o seu simétrico em relação ao 0
situado à mesma distância do zero. Por exemplo, 1.000 e 0,001 têm
seus simétricos –1.000 e –0,001. Dissemos cópia simétrica quase
perfeita porque ao multiplicarmos negativos obtemos um positivo que
cai fora do lado negativo da reta numérica. Contudo, podemos
“enxergar” para cada negativo muito distante do zero um “simétrico”
negativo bem próximo de zero. Por exemplo, –1.000.000 e –
0,000001.
A fotografia final da
simetria entre números grandes e pequenos pode, então, ser descrita
da seguinte maneira: na reta numérica, do lado direito do 0, se
situam os positivos grandes e pequenos formando um grupo
multiplicativo. Para cada número positivo grande, isto é, bem
distante do zero à direita, existe um negativo bem distante do zero
à esquerda. Para cada número positivo bem pequeno, isto é, bem próximo
de zero, existe um negativo bem próximo de 0 mas à esquerda. Os
negativos distantes ou próximos de zero não formam um grupo. Os
negativos junto aos positivos ainda formam um grupo multiplicativo,
pois as três propriedades de grupo são ainda satisfeitas.
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