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Novo Ano
 
O matemático do JVI (MJVI) encontra um amigo com quem não conversava havia muito tempo. O amigo buscava intensamente o Ser do Tempo e pensava ter encontrado sua essência. Não sabia que seu amigo dedicava-se ao Jogo da Vida do Indivíduo e pensava ter descoberto a natureza do Tempo.
 
MJVI. Caro amigo, quanto tempo se passou. Feliz Ano Novo. Como o tempo passa, não?
 
AMIGO. Descobri algo sobre o mistério do Tempo. Ninguém vê o Tempo, ninguém pega o Tempo, ninguém ouve o Tempo, ninguém pára o Tempo. Você por acaso já pensou seriamente sobre o que é o Tempo?
 
MJVI. Sim, descobri que entender o que é o Tempo é a chave para a percepção da diferença entre Ser e Existir. De fato, o Tempo é imanente ao ser da autoconsciência. Assim como toda partícula fundamental supostamente existente tem sua oposta, e se aniquilam, a aparente existência tem para a autoconsciência uma contrapartida. A autoconsciência pode imaginar que existe de algum modo, mas paga o preço da ousada aventura. O Tempo aparece sempre que uma autoconsciência imagina que Existe. Isto é um postulado. O Tempo nada mais é do que o custo imanente para que uma autoconsciência extrapole sua imaginação de Ser para a imaginação de Existir.
 
AMIGO. O Tempo é uma das poucas Coisas que não são passíveis de controle.
 
MJVI. O Tempo não está, de fato, sob controle. Ao contrário, ele é o controle. Ele sinaliza continuamente à matéria viva que qualquer criação de Coisa não lhe pertence, exceto a pura imaginação da Coisa, e, portanto, a Coisa tem que ser cancelada. O Tempo é o cancelamento imediato da Existência de qualquer imaginação que ouse alçar um voo de Existência extrapolando seu Ser de pura imaginação. O Tempo, portanto, indica claramente à autoconsciência que ela não só não tem controle sobre as Coisas como também não tem o poder de criar Coisas porque ele as cancela imediatamente.
 
AMIGO. O Ser Humano submete-se ao Tempo, sem muita consciência de que isto é parte integrante da Vida, é a forma pela qual a Vida nos cobra atitudes, ações, dedicação e responsabilidade.
 
MJVI. Não sei o que é Vida e não sei o que é Ser Humano. De meus postulados não se segue nenhum desses teoremas.
 
AMIGO. O Tempo não rima com lamento, mas lamenta muito a rima, o Tempo não é para se lamentar, pois através do Tempo podemos constatar nossa evolução e tudo aquilo que ainda temos para realizar.
 
MJVI. Nós quem? Não sei quem sou, ou o que sou. Apenas sei que o "cogito ergo sum", uma genial imaginação de Descartes, não se sustenta, infelizmente. Abandonei o "penso, logo existo" por "imagino, logo imagino a possibilidade de imaginar imaginações". Este é meu postulado mais fundamental. Não sei quem sou, ou o que sou; portanto, tampouco sei de onde vim e para onde vou, mas nada mais posso ser do que possibilidade de imaginações. Não tenho o direito lógico de transformar meu Ser imaginário em Existir real. Antes de abandonar a caverna de Platão preciso primeiro imaginar melhor quem sou, ou o que sou, e o que é a própria caverna. Uma metáfora útil é que o equilíbrio do cliclista não pode abandonar a bicicleta e o ciclista. O equilíbrio emerge, milagrosamente, e, também milagrosamente, se vê como um Ser para Si, como descobriu Sartre, mas daí a se ver como uma Coisa emancipada de seu Ser é um salto lógico arriscado. O Tempo se encarrega de fazer justiça implacável cancelando qualquer tentativa de migrar do Ser para Sí para o Existir.
 
AMIGO. Então vamos entender o que é o Tempo. Se a Vida é a Grande Barriga na qual nós vivemos, então o Tempo é o sangue que circula e nos alimenta, o Tempo chega a nós por um cordão umbilical ligando-nos à Vida, o Tempo nos nutre, nos alimenta, retira de nós impurezas, nos liberta e nos sustenta. Sem Tempo não existe Vida Própria, não Existimos, não tocamos nossa mãe, não conhecemos nossos amigos, pois para tudo isso precisamos de Tempo. O Tempo começa no instante que somos concebidos no útero materno. Começamos a ter o domínio do Tempo no momento em que nascemos, e perdemos o direito ao Tempo no momento de nossa Morte.
  
MJVI. Insisto na imaginação de que o Tempo não tem o poder de criação da Vida. Ao contrário, ele a cancela continuamente. O Tempo é a Anti-Vida. Isso não é tão estranho, porque, embora não se saiba onde foi parar a Anti-Matéria, a Matéria também é cancelada pela sua contrapartida. Toda partícula tem sua anti-partícula. Elétron e pósitron se aniquilam formando um fóton. Aliá, isso é interessante para aqueles que insistem em ter Vida eterna. Podem imaginar, por analogia ao fóton, que ao serem aniquilados pelo Tempo, sua Anti-Vida, tornar-se-ão algo análogo a um fóton, e "viverão" eternamente transformando-se em algum tipo de "luz". Isto é, brilharão eternamente. A imaginação Vida tenta se realizar, isto é, tenta se emancipar como Coisa do Mundo, mas o Tempo a obriga a se restringir à sua natureza de pura imaginação. A Vida é uma ousadia da Matéria clara. Quatro por cento do Universo provavelmente acendeu por algum motivo desconhecido. Provavelmente, é uma parte da Energia escura que acendeu. Outros vinte e seis por cento da imaginação Universo continua Matéria escura, mas setenta por cento desse Universo imaginário não é
nem Matéria, embora possa ser matematicamente equivalente. Não acho provável que o Tempo comece no instante da concepção, porque nesse instante não há, provavelmente, consciência nem tampouco autoconsciência. O Tempo aparece como custo imanente da Vida, ou seja, à medida que a Matéria no estado de informação, chamada Psique, vai produzindo o único produto da qual é capaz, a imaginação, ela vai se preparando para a criação do maior dos desejos possíveis, o desejo de Existir. Por algum motivo desconhecido, a Psique passa a imaginar unidades de imaginação, dentre elas, a autoconsciência. Aos poucos, uma imaginação única se reproduz em novas unidades como a imaginação da mãe, das mãos, da boca, dos seios, e aos poucos se juntam a várias outras unidades de imaginação. Um misterioso Princípio de Prazer, genial postulado de Sigmund Freud, conduz a Matéria nessa aventura de Viver. A grande meta a ser atingida é o maior dos prazeres, a Existência. Existir e criar Coisas no Mundo são equivalentes. Viver é o mesmo que criar Coisas no Mundo e, enquanto Coisas são criadas, a Vida está viva. Entretanto, a Psique só tem o poder
de imaginar. Seu desejo de Existir é reprimido pelo Tempo.
 
AMIGO. Para o Ser Humano o Tempo é algo muito limitado. Nossos dias têm 24 horas, nossos anos 365,25 dias, nossas vidas várias décadas. E se assistirmos TV 6 horas por dia, serão ¼, ou 25% de nossas vidas gastas assistindo TV. Se você viver 80 anos, então terá passado 20 anos vendo TV. Contudo se você perceber que dorme 8 horas por dia, então em 80 anos terá dormido 27 anos da sua vida. Considerando as refeições, 2 horas por dia, então em 80 anos 7 anos terão se passado com você comendo. Portanto sobraram apenas 23 anos dos 80 anos de sua vida para fazer algo útil, ou 7 horas por dia para você fazer as coisas que deseja e Lutar pela Sobrevivência, e isto é muito pouco.
 
MJVI. Não sei o que é o Ser Humano. Não sei quem somos nós. Suas imaginações não me fazem sentido.
  
AMIGO. O Tempo de cada um é diferente O Tempo de cada um é diferente, o Tempo não é igual para todos, nem todos sentem o Tempo com a mesma velocidade, ou utilizam o Tempo da mesma forma, com o mesmo ritmo. Em nossos corpos existe um relógio natural chamado coração. Sob a batida do coração todos os nossos órgãos são alimentados de sangue e providos de Saúde. Tal qual o Tempo nos nutre de Vida, o sangue nos nutre de Saúde. As crianças e recém nascidos possuem um batimento cardíaco muito mais acelerado. Durante as 24 horas do dia, as crianças tem muito mais batimentos cardíacos que o adulto, e assim por algum motivo, para as crianças os dias demoram a passar. Como os dias são longos para as crianças, como é tortuosa a espera pela chegada da noite, ou para o dia do nosso aniversário? E não é apenas isso que as crianças percebem de diferente. Do chão onde estão, as crianças vêem a casa gigantesca, os quartos enormes, a escada intransponível, as alturas monstruosas, esta diferença de medida chama-se percepção. Portanto, assim como a criança tem uma diferente percepção do tamanhos da casa, ela também percebe o Tempo com uma velocidade menor. Mas o adulto também pode sentir a percepção de tempo acontecer. Nos segundos que antecedem um acidente de carro, por exemplo, a sensação de perigo dispara Adrenalina no Sangue, imediatamente o coração bate muito mais rápido, e nossa percepção de Tempo muda, e como se as ações acontecessem em câmera lenta, nós podemos assimilar muitos detalhes em décimos de segundo, como se o Tempo estivesse congelado, e fôssemos espectadores de cinema, assistindo o acidente acontecer. Igualmente, quando estamos ansiosos, nossos corações disparam e temos a sensação de que o Tempo não passa. Obviamente que esta relação entre batimento cardíaco e a percepção de tempo não é a única explicação para os fatos elencados acima, pois existem reações químicas e aspectos psicológicos envolvidos no comportamento e na percepção humana, mas vale a idéia geral de como o Tempo se relaciona com o Ser Humano de acordo com o estado e a situação pela qual passamos. Compreenda a natureza do Tempo e gaste-o bem. Planeje seus dias pois 7 horas é muito pouco tempo, priorize aquilo que for mais útil na Luta pela Sobrevivência. Dê significado à sua Vida e, principalmente, não passe dormindo 80 anos que poderiam ser vividos com muitas alegrias e felicidade, utilize-se da Fé, tenha sonhos e deixe-os evoluir naturalmente, pois o Tempo é Vital, e Vital quer dizer Vida.
 
MJVI. Caro amigo, quantas Coisas você criou em seu Mundo. Quantas autoconsciências você colocou em seu Mundo. Você as igualou automaticamente e também automaticamente criou o Ser Humano. Se não foi você que criou esse Mundo, então quem foi? Coisas não podem ser criadas a não ser por outras Coisas. Analogamente a uma suposta célula existente que não pode vir a Existir a não ser por meio de outra. Como uma Coisa teria que dar origem ao Criador, então o Criador não Existe. Sua autoconsciência é capaz de imaginar uma infinidade de imaginações, mas não é capaz de capturar a realidade absoluta de uma sequer desse superpovoado Mundo de Coisas imaginadas. Mostre-me uma, apenas uma, Coisa de cuja realidade você possua uma prova insofismável.