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A Matemática e
o novo ensino médio
Marcelo Lellis
Luiz Márcio Imenes
Este artigo
pretende contribuir para a discussão sobre o ensino de Matemática no curso médio,
tendo em vista os recentes Parâmetros Curriculares Nacionais para esse nível
de ensino. O texto compreende três núcleos:
-
notas
sobre as mudanças que vêm sendo propostas sobre o ensino brasileiro;
-
considerações sobre o
atual ensino de Matemática no curso médio (2º grau ou colegial, como
era chamada até bem pouco tempo);
-
uma sugestão de conteúdos
prioritários e enfoques adequados para um novo ensino de Matemática.
Na primeira parte, os autores
procuraram se limitar as informações objetivas; no restante, predominaram
análises, avaliações e opiniões mais pessoais.
Sobre as
mudanças no ensino
Panorama
Com certa dose de simplificação, pode-se afirmar que o paradigma
educacional dominante durante os anos setenta, no Brasil e no mundo, era
essencialmente conteudístico, deslocados de contextos sociais e baseados no
treinamento, sem reflexão por parte do educando. Certamente esse modelo
sempre foi contestado com propostas de modificações no ensino das várias
disciplinas, mas, ao menos em nosso país, o quadro geral pouco se alterou
até os anos noventa, quando, de certa forma, a contestação ganhou apoio
oficial concretizado nos Parâmetros Curriculares Nacionais. Estes pertencem
a um conjunto de iniciativas do Ministério da Educação, algumas bastante
controvertidas, que incluem também a avaliação de livros didáticos, o
Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), o Exame Nacional de Cursos (Provão),
o Fundo de Valorização do Magistério, etc. e pretendem transformar os vários
níveis de ensino.
Fora do âmbito do executivo, o Congresso Nacional
promulgou em 1996 a Lei 9394, da Diretrizes e Bases da Educação Nacional
(LDB/96), ela mesma um fator de mudança. Em conseqüência, em 1998, o
Conselho Nacional de Educação institui as Diretrizes Curriculares
Nacionais para o Ensino Médio (DCNEM) e, no segundo semestre de 1999, a
Secretaria da Educação divulgou os Parâmetros Curriculares Nacionais para
o Ensino Médio (PCNEM).
As medidas governamentais já repercutem no ensino fundamental e no
universitário, embora nem sempre de maneira positiva. Na escola
fundamental, porém o progresso parece-nos claro. Grupos de educadores que
desejam substituir o paradigma educacional meramente informativo vêem
obtendo sucesso razoável. Em particular no ensino de Matemática, os novos
parâmetros podem se amparar numa comunidade de educadores matemáticos
muito atuante, consolidada desde os anos oitenta, e que se constitui ela própria
em elemento transformador não oficial. Foram as práticas, os estudos e as
pesquisas dessa comunidade que pautaram os Parâmetros Curriculares na
disciplina.
Os PCNEM, porém, são ainda muito recentes para que possamos vislumbrar
mudanças no ensino médio e, em relação à Matemática, o debate entre os
educadores matemáticos mal começou. Esta, aliás, é uma das motivações
deste texto.
Elementos das
DCNEM e dos PCNEM
Comecemos pelo
mais geral. As DCNEM interpretam e especificam a LDB/96, sendo o referencial
para o restante do documento que apresenta os parâmetros para as três áreas
do ensino médio. Estes devem der tomados como continuação dos parâmetros
de ensino fundamental.
O Ensino Médio é definido como etapa final da formação básica do
educando, aquela necessária para todo cidadão educado e visa
"introduzir o jovem no mundo como um todo", porque depois vem uma
etapa especializada ( no trabalho ou na universidade, etc.). Afirma-se
reiteradamente que o nível médio de ensino não deve ter como objetivo
principal a preparação para exames vestibulares. O ensino proposto tem
como fundamentos filosóficos:
-
a estética
da sensibilidade (que valoriza o criativo, o curioso e favorece o
trabalho autônomo, não padronizado);
-
a política
da igualdade (que busca a solidariedade e respeita a diversidade, sendo
base da cidadania);
-
a ética da
identidade (que promove a autonomia do educando, da escola, das
propostas pedagógicas etc.).
Sensibilidade, igualdade e identidade, caracterizadas da maneira que vimos,
jamais se harmonizam com um ensino que se limitasse a transmitir informações
e a treinar procedimentos, no qual a aprendizagem fosse reduzida à memorização
do que foi apresentado. Por isso, as DCNEM concebem o conhecimento como
construção coletiva (o que é bem mais que informação) e a aprendizagem
como construção de competências em torno do conhecimento (competências
de representação e comunicação, de investigação e compreensão, de
contextualização sócio-cultural).
Essas
concepções praticamente exigem uma ação pedagógica que
favoreça o "aprender a aprender" e o desenvolvimento de competências
por meio de estratégias que mobilizem mais o raciocínio do que a memória.
Em tal processo, é condição necessária que os conteúdos sejam
significativos do ponto de vista do educando e, portanto que sejam
contextualizados e tratados de forma interdisciplinar. Muitas vezes, a
simples contextualização já acarreta a interdisciplinaridade, porque
entender um contexto real e agir sobre ele depende dos diversos pontos de
vista das diferentes disciplinas.
As DCNEM consideram o Ensino Médio composto por três áreas de
conhecimento:
(i) Ciências da Natureza, Matemática e suas
tecnologias,
(ii) Linguagens, Códigos e suas tecnologias,
(iii) Ciências Humanas e suas tecnologias.
A concretização das idéias contidas nos PCNEM deverá ocorrer com base na
proposta pedagógica de cada escola que, a partir de uma base comum para
todo país (75% da carga horária), propiciará "uma diversificação
de tipos de estudos, dos mais humanísticos aos mais científicos ou artísticos"
Na parte do PCNEM relativa à matemática apresentam-se as finalidades do
ensino da disciplina. Leva-se em conta seu caráter formativo (desenvolve
capacidades específicas), seu aspecto instrumental (as aplicações na
realidade e nas ciências) e seu status como como ciência (métodos próprios
de pesquisa e validação bem como sua organização). Assinalam-se ainda as
relações de dupla mão entre Matemática e tecnologia: a primeira como
instrumento para ingresso no universo tecnológico e este como fonte de
transformações na educação matemática.
Os princípios contidos nas DCNEM e os parâmetros relativos à matemática
relacionam-se harmonicamente, embora os textos tenham autores diferentes. Os
parâmetros tem como objetivo que os educandos percebam as aplicações da
Matemática em variadas situações, o que ecoa a idéia de um ensino
contextualizado; os parâmetros propõem que os educandos desenvolvam análise
e julgamento, de resolução de problemas, de comunicação e representação,
o que corresponde a uma visão de aprendizagem como "construção de
competências"; os parâmetros apresentam como finalidade do ensino a
compreensão da Matemática, a confiança no seu uso e certa satisfação
pessoal com ela, o que reflete, entre outras idéias, a ética da identidade
e a promoção da autonomia. Para mais exemplos recomendamos a leitura dos
textos originais.
Assinalamos,
finalmente que os parâmetros não apresentam um programa, uma lista de
conteúdos. Sugerem que um núcleo nacional comum deva ser estabelecido no
futuro, após reflexão e debate.Uma seleção de conteúdos adequada
evitaria excessos de especialização (por que a formação pretendida é de
caráter geral) e levaria em conta fatores sociais e cognitivos.
Apreciação
Em geral, nossa opinião sobre as DCNEM e
os PCNEM é bastante positiva. Embora o discurso em ambos os documentos
abrigue uma dose de sonho e desejo - ou justamente devido a isso -
acreditamos que indique considerável melhora na educação brasileira.
Acreditamos ainda haver possibilidades concretas de implementar um ensino
que se aproxime dos objetivos propostos.
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